
A propósito da sua recente Exposição no Museu da Água de Coimbra, fomos conversar com Pedro Proença. Versátil, genuíno, a doçura do trato não esconde as opções marcadas que fez no que respeita às suas convicções em arte: "O trabalho intelectual é um trabalho infantil, sobretudo o mais sério", afirma.
Para nos iludir de seguida: "Sei que pintar é uma coisa mais animalesca, é feito com muita mais ansiedade. O desenho não tem essa ansiedade.". Autor de um alfabeto único nas artes portuguesas, a Pedro Proença só interessa a singularidade, os resultados e a experiência. O trabalho é uma poética. Que de intenções está o inferno cheio...!
O Museu da Água de Coimbra é um Museu que tem apenas um ano e tem procurado expor autores de renome, tanto portugueses como estrangeiros. Consideras-te um autor de topo?
Acho que é um bocado irrelevante. Sei que sou qualquer coisa e que tenho alguma relevância, mas ser ou não ser de topo, para mim não é uma auto-classificação ou desclassificação ou outra coisa qualquer. Não é um objectivo.
O que te motiva quando trabalhas?
É o próprio trabalho. É a prática do trabalho regular, a experiência e o entusiasmo para que o trabalho seja visto por alguém, nem que seja por meia dúzia de pessoas. O trabalho é uma poética, é uma forma de experimentar coisas novas que podem acontecer ou não. Para mim, é uma rotina. Há pessoas que fazem trabalhos quando decidem fazer uma exposição, eu estou sempre a fazer coisas.
Porquê só desenhos nesta Exposição "La Fontaine e outras Fábulas"?
Há uma parte que é desenho e outra texto, que são as minhas duas vertentes principais de trabalho. É uma espécie de longo poema feito com restos de poemas de outras pessoas que vão desde a Bíblia do Evangelho segundo S. João ao Sartre! Há um desenho que se centra sobre o Marcel Duchamp, num dos seus mais famosos ready-made, que retraduzi em português e em barroco. No fundo, são uma série de interrogações que coloco na perspectiva de fábula, como na história do famoso texto de Nietzsche em como o mundo se converte em fábula e, neste caso, é a história do urinol que o Marcel Duchamp converteu numa espécie de fonte.
Tu pensaste no La Fontaine como uma espécie de trocadilho com a fonte, com a água e com o Museu da Água?
Exactamente. Foi uma brincadeira!
Essa brincadeira....tu brincas muito!?
Inevitavelmente.
Mas brincas intelectualmente ou és um criançola?
Não vejo grande diferença. O trabalho intelectual é um trabalho infantil, sobretudo o mais sério. Infantil no sentido em que há um lado lúdico e de prazer quase escarafunchoso de criança. Acho que as grandes invenções, as grandes criações e mesmo as descobertas científicas passam por uma atitude que chamaria "infantil". Mas não a podemos ver como uma coisa dirigida ao infantilismo. É mais um espírito.
Gostas mais de desenhar ou de pintar? Quando digo pintar, é com tintas, com óleo, etc.
Não faço grande distinção entre desenhar e pintar, exceptuando a cor. Para mim, desenhar é uma coisa mais instintiva e natural como as crianças fazem, coloca questões mais limitadas, se bem que coloque muitas. Sei que pintar é uma coisa mais animalesca, mais complexa porque implica o desenho e um conjunto de soluções ligadas a uma certa sensibilidade. É feito com muita mais ansiedade. O desenho não tem essa ansiedade.
Tu começaste na banda desenhada. Já deixaste?
Não, nunca deixo.
Achas que os teus desenhos ainda hoje estão ligados à banda desenhada?
Têm sempre uma ligação. Nunca fiz banda desenhada tradicional, mas uma relação com a imagem e elementos pseudo-narrativos, sempre um bocado descontínuos. Não havia muita continuidade. Fiz algumas bandas desenhadas com história, mas nunca consegui ser sistemático e ter uma narrativa.
Tu não és um argumentista?
Posso fazê-lo, mas não sou naturalmente argumentista. Já fiz histórias com princípio meio e fim e, de vez em quando, faço umas narrativas, mas sou muito mais de salpiques. Gosto mais da descontinuidade e de pequenos acontecimentos que surgem, do que uma coisa que começa de um lado e acaba no outro. Mas pode-se fazer uma coisa que começa com muito salpiques pelo meio!
A tua obra está cheia de salpiques...
Pequenas emergências.
Pequenas emergências são um bom termo. Achas que já consegues determinar alguma linha que possa unir essas descontinuidades e essas emergências? Ou isso não nem sequer te interessa?
Se calhar, uma das minhas opções é utilizar a metalinguagem não no sentido linguístico. Isto é, dentro da prática do desenho e da pintura, sou muito sistemático. Acho que a linguagem tem, não vou dizer regras, mas há bases de formas que depois se expandem e se transformam noutras. Já fiz esse trabalho básico há 25 anos - a alfabetização dos elementos básicos - mas estou sempre a regressar a ela. Isso permite que, das linguagens que são criadas, se crie uma espécie de software que, se combinares de uma certa maneira vão num sentido e, se combinares de outra, vão noutro. Quer ao nível do desenho, quer ao nível da pintura.
Mas, de qualquer maneira, é um software sempre numa determinada direcção, porque esta metalinguagem que tu próprio criaste - a tal alfabetização, como dizes - criou uma forma muito única de expressão que utilizas constantemente e que vais variando à maneira que o tempo e as ideias vão surgindo. Mas estás agarrado a essa metalinguagem...
Não, porque depois há sempre o lado da influência. Isso permite-me ser mais sensível em termos miméticos às influências. Isto é, quando a absorção de uma influência se faz normalmente de forma intuitiva, quase epidérmica, é muito mais digerida quando a filtramos, quando a resumimos num alfabeto...
Traduzes então imediatamente essas influências para o teu alfabeto.
Muitas vezes faço isso. Estou sempre a fazer pequenas sistematizações de coisas que gosto e de influências de outros artistas.
Sentes-te influenciado por quem?
Posso ser sincero, há muitas pessoas que admiro e com algumas das quais convivi: desde o Ângelo de Sousa, o Eduardo Batarda, o Álvaro Lapa... uma série de pessoas que me precederam em termos geracionais e que, sendo um trabalho original, acabei por filtrar e constantemente volto a digeri-los voluntariamente.
Sentes-te um continuador ou um rompedor?
Para mim não é uma questão de continuar, é uma questão de quase sincretismo, porque estão lá certas potencialidades e acho que posso recuperá-las e transformá-las porque me são simpáticas!
Esse sincretismo está - ou deve estar - na base da arte?
Está, porque nenhum artista cria a partir do nada. Ninguém é original a partir do nada, vai sempre buscar a algum sítio, ou transformando, ou por redução, ou por desenvolvimento.
O que é que mais gostas de fazer: reduzir ou acrescentar?
Acho que tenho mais tendência para acrescentar e combinar os diferentes aspectos. Uma das coisas que tenho feito é criado alfabetos de artistas. Ver o que é importante e criar um alfabeto que depois posso utilizar até mesmo informaticamente.
Utilizas muito a informática nos teus trabalhos?
Não é uma questão que seja necessária, mas neste momento, como não faço muita distinção entre desenho e escrita, para mim existe cada vez mais uma interacção entre as letras e os signos em geral. A literatura, tal como tem sido utilizada até hoje, é mais limitada em termos visuais.
Já os poetas brasileiros no século XIX foram os primeiros a fazer uma rítmica gráfica, na qual que a colocação das palavras no papel tinha um significado específico. Mais acima ou mais abaixo, havia uma rítmica estética. Quando eu falava da informática não era tanto nesse aspecto, mas mais sobre uma outra polémica, que é a utilização da informática no desenho e na pintura. Há quem diga que aquilo que são os meios tradicionais, como o pincel, a espátula, a boneca e tudo o que era normal os pintores utilizarem, podem também hoje ser complementados com o rato e com a caneta electrónica. Achas trabalhar num ecrã de computador retira ou acrescenta alguma coisa em relação ao trabalho criativo do artista plástico?
Retira e acrescenta. É como todos os meios, todos acrescentam e retiram coisas. Há possibilidades que se abrem e há outras que se fecham e a experiência é sempre um bocadinho diferente. Depende, pode ser melhor ou pode ser pior, mas não posso dizer que um meio tradicional imediato seja pior ou melhor do um meio que seja mais sofisticado.
Interessam-te mais os resultados?
Interessam-me os resultados, a singularidade e a experiência. Eu digo sempre isto: o resultado é uma parte, mas a experiência é fundamental.
O que é mais importante para ti, o resultado obtido ou a intenção de o obter?
O resultado, porque para mim a intenção é uma questão muito pouco importante.
Há autores que defendem que o importante em arte é a manifestação da intenção do autor. Mas, no teu discurso e na forma, quase aleatória, com a qual tu crias os teus momentos de emergência, às vezes não vejo intenção...
A intenção é fundamental no sentido de criar um programa. Ele acaba por estar lá e acaba por ser o resultado do que se gere, as linguagens, as formas e os conteúdos. No fundo, desconfio sempre da intenção porque pode funcionar como um bluff.
Um bluff do autor para encobrir...
Não é para encobrir qualquer coisa, é uma vontade para que as coisas signifiquem muito. Uma vontade de valorização do produto. E eu desconfio. Posso pensar que a arte é uma fraude nesse sentido. O sentido existe, mas depende do uso ou dos abusos que se faz dele. A maneira como o autor coloca os seus sentidos é legítima no sentido em que cria ou entende uma relação com as coisas que as pessoas podem perceber ou não. Duchamp era muito claro nisso. As intencionalidades contam muito menos do que a maneira como depois as coisas acontecem.
E tu concordas com isso?
Eu concordo inteiramente nesse aspecto, concordo com o Duchamp. Embora ache que as intencionalidades não se podem desvincular inteiramente.
Mas não ao ponto de dizer que uma obra inacabada já está acabada porque já existe uma intenção demonstrada?
As obras ou as coisas nunca estão acabadas.
Tu não sentes, quando terminas um desenho ou um quadro, que esse está acabado?
Enquanto produtor, está acabado. Eu normalmente nunca tenho coisas minhas em casa, mas qualquer relação com as coisas que fizemos, passa a ser completamente diferente com o passar de algum tempo. Começamos a descobrir qualidades ou defeitos, um texto começa a ter mais sentido ou menos sentido daquele que teve.
O que acabas de dizer corresponde à negação da intenção como valor absoluto da obra. É apenas mais um valor a acrescentar à obra e nem sequer é o mais relevante.
Acho que pode ser redutor uma pessoa reduzir ou apenas acrescentar.
É como se a obra não evoluísse.
A biografia do artista pode ser fantástica e funciona como interface na maneira como as pessoas acolhem as obras.
O que, às vezes, é muito mais significante do que qualquer intencionalidade, mas também, se calhar, é caricato. Eu não acredito na outra versão que é o oposto, em que as obras são apenas as formas e aquilo que vemos, porque vemos sempre de maneira diferente e os afectos que depositamos na relação com as coisas são sempre contraditórias e em constante mutação.
Voltando a Coimbra, esta tua mostra no Museu da Água está dividida em três partes...
Foram séries de coisas diferentes que fiz...
São três emergências?
Três emergências...sim! Uma foi trabalhada e adequada nesse sentido - é o La Fontaine. A segunda - Small Splash - é um conjunto de metáforas que têm a ver com algumas imagens simbólicas..
Muito satíricas....
São um conjunto de cartoons engraçados e divertidos. Acho que os miúdos vão gostar. Foi uma série que fiz despreocupadamente. Depois, há um livro a rematar que é um dilúvio - o Dilúvio Explicadista - que tem ver com um trabalho que tenho vindo a aprofundar com outras pessoas, nomeadamente com o Pedro Portugal e pessoas que aparecem - alguns filósofos - e que é explicativo. É a arte de explicar, uma das formas de fazer arte mais conceptual. Depois, como isto é um poema, utilizei um método um pouco aleatório. Acho que, em termos literários, é divertido.
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