A dor da arte tem cura

Conversa com Paco Barragán

O curador responsável pelos Project Rooms na edição deste ano da ArteLisboa fala sobre a sua função, tece críticas e lança pistas. Paco Barragán acredita na mudança.

Artes & Leilões — Além da curadoria, o seu percurso fica marcado pelo jornalismo. Ainda escreve para alguma publicação?
Paco Barragán — Entre 1996 e 2002 escrevi para publicações como Lápiz e ABC Cultural, em Espanha, Metropolis-M, nos Países Baixos, Artnexus (EUA/Colômbia), Artnet (EUA) ou Contemporary (Reino Unido). A partir de 2002 a curadoria começou a interessar-me mais e foi nessa altura que co-comissariei a minha primeira exposição, "Deluxe", com o colectivo de artistas El Perro.

Muitas pessoas fazem crítica de arte e, simultaneamente, são curadores ou professores. Não me parece muito apropriado, embora compreenda que o mercado está enfraquecido e seja impossível viver da crítica de arte ou da curadoria. Por isso, hoje em dia só escrevo artigos de opinião ou algum texto que me peçam para uma exposição.

A & L — Como surgiu o livro La Era de las Ferias?
Paco Barragán — Surgiu da minha experiência, quando trabalhei como curador ou director artístico de feiras, como CIRCA Puerto Rico ou PhotoMiami, foi a contrapartida teórica do meu trabalho prático. Por outro lado, fiquei surpreso ao verificar que não havia nenhum livro sobre feiras de arte.

A & L — Que relação pode estabelecer—se com o seu livro anterior, El Arte que Viene/The Art to Come (2002)?
Paco Barragán — Esse livro resultou da minha coluna mensal na Subastas Siglo XXI, uma revista sobre o mercado de arte. Propuseram-me que se convertessem os textos em livro, na linha de CREAM e Art at the Turn of the Millennium, com a diferença que os 159 artistas propostos por mim, e cuja obra tinha visto entre 1996 e 2001, eram sobretudo jovens ou artistas desconhecidos.

Era um livro mais arriscado e fico satisfeito que hoje um grupo de artistas desconhecidos na altura — Julie Mehretu, Annika Larsson, Haluk Akakce, Peter Rostovsky, Allora & Calzadilla, Loris Cecchini, David Claerbout, Yael Davids, Runa Islam, Roger Hiorns, Rachel Howard, Luo Brothers, David Thorpe, Paul Pfeiffer, Paul Noble, Do-Ho Su, Fiona Tan, Javier Téllez, Rosemary Laing, Hellen van Meene… — sejam conhecidos do grande público.

Com La Era de las Ferias propus-me escrever um livro com a ambição de que se torne numa referência, uma espécie de CREAM para outros livros sobre o fenómeno das feiras que venham a surgir no futuro. Talvez por isso o estilo seja muito directo e muito prático, é a minha parte calvinista holandesa.

A & L — Neste livro, quando fala sobre as dez regras do coleccionador, refere a importância de contar com assessores. Em que medida eles podem ajudar a sedimentar o gosto de um coleccionador?
Paco Barragán — As minhas dez regras do coleccionismo são normas que, consciente ou inconscientemente, são aplicadas por coleccionistas de que gosto. Muitos coleccionadores deixam-se levar pelo que algumas pessoas dizem, sem parar para pensar se gostam daquilo que vêem, compram "de ouvido" e não "de vista". A quem quiser coleccionar por prestígio social, investimento económico ou branding corporativo, recomendo que contrate um assessor, sobretudo no começo. A arte está cada vez mais especializada e, cada vez mais, exige mais tempo. O coleccionador tem de perder algum tempo, viajar, se quiser dedicar-se ao coleccionismo com seriedade e profundidade e evitar depender exclusivamente de um assessor ou de um galerista.

A & L — No livro, discorre sobre as diferenças entre bienais e feiras. Quer sintetizar um pouco o seu parecer?
Paco Barragán — Os anos 90 foram a era das bienais, agora vivemos na era das feiras. Muitas bienais são repetitivas — repetem curadores, repetem artistas, e procuram um tipo de artista blue chip e estão bastante falhas de ideias e desligadas do contexto. E também foram objecto de manipulações políticas — Bienal de São Paulo, de Havana, Joanesburgo, Bienal de Valencia — ou, pura e simplesmente, desapareceram.

Por outro lado, existe alguma diferença entre uma feira e a Bienal de Veneza, quando tudo está vendido antecipadamente, ou na abertura? Por agora, a bienal, como plataforma, limita-se a ser uma espécie de "ponte aérea" de curadores que vão de bienal em bienal com projectos que tanto podem fazer-se no Afeganistão como em Nova Iorque. Ou, como disse o artista mexicano sedeado em Nova Iorque, Pablo Helguera, "big exhibitions with small ideas". Acabei de ler que a Bienal de Lyon contratou Catherine David… É disto que estou a falar, e não é nada pessoal!

As feiras de arte impuseram-se por razões económicas — voos baratos, Internet, mais informação — mas também porque correspondem ao desejo de viver experiências novas e sentir-se protagonista: ver arte, assistir a inaugurações paralelas, conferências, visitar colecções privadas…

As feiras tornaram-se naquilo a que chamo "Urban Entertainment Centers (UEC)", centros urbanos de entretenimento muito sofisticados, e assim se explica o seu êxito dentro do "novo espírito do capitalismo", tão acertadamente descrito por Luc Boltanski e Eve Chiapello. Tanto a bienal como a feira são plataformas necessárias e complementares, mas ambas precisam de uma revisão.

A & L — No seu livro define-se como "um curador feito feirante". O que distingue um curador especializado em feiras?
Paco Barragán — No princípio usava o conceito "curador de feira" de forma irónica, mas cedo me dei conta de que o conceito poderia ser perfeitamente válido, como uma espécie de ready-made prático. As feiras de arte procuram ajuda no curador para conseguir uma dada posição artística e, por outro lado, para que conceba projectos que só possam ser vistos ali, como os Frieze Projects. Há cada vez mais curadores como directores de feiras e nos comités de selecção, com a vontade de conseguir selecções mais transparentes e menos polémicas. Para o curador, a feira converte-se numa nova plataforma onde realiza projectos de outro tipo, com outra duração, dado que o processo de selecção, apresentação, inauguração e discussão fica reduzido aos cinco dias da feira.

O curador de feira trabalha com as galerias e artistas participantes, quando está a conceber uma exposição ou secção. Por outro lado, também se envolve na captação de galerias participantes, como também deverá assessorá-las sobre que artistas ou obras mostrar.

A participação do curador deveria, sobretudo, contribuir para que uma feira não seja apenas um puro intercâmbio comercial, mas se converta também numa experiência estética e pedagógica.

A & L — Cita Amanda Coulson, recordando que ao afirmarmos que há demasiadas feiras, afirmamos que há demasiada arte…
Paco Barragán — Estou de acordo com ela. Há muitas críticas, dos galeristas e coleccionadores, porque se sentem cansados de tantas feiras. Aos primeiros, dir-lhes-ia que devem ser selectivos, desenvolver uma estratégia; no caso dos coleccionadores, é um assunto mais complexo relacionado com o ter estado "em tal feira" e os jogos de competência social.

Mas acho estupendo que haja tantas feiras, há muitos artistas e galerias que não podem estar na Art Basel ou na Frieze e, assim, têm oportunidades. Amanda afirma que "estar contra as feiras é estar contra a arte e os artistas". Eu acho o mesmo.

A & L — Quais são os artistas portugueses que destacaria e porquê?
Paco Barragán — O meu conhecimento sobre a cena artística portuguesa é bastante limitado, tirando os grandes nomes que todos conhecemos, só trabalhei em projectos ou exposições com Carlos Bunga, Augusto Alves da Silva, Catarina Campino e Vasco Araújo. É graças à ArteLisboa que tenho a oportunidade de trabalhar pela primeira vez em Portugal.

A & L — Num artigo sobre a exposição "Antirrealismos" (2003) atacou o que designou como "a falta de uma estrutura galerística forte, um coleccionismo pobre e provinciano, e uma falta de interesse por parte das instituições em promover e apoiar a arte jovem." O que poderia e deveria mudar?
Paco Barragán — Em Espanha, e por causa desta "era das feiras", as coisas começaram a mudar a pouco e pouco. Cada vez são mais os coleccionadores que viajam e o facto de não falarem inglês já não é um impedimento, mas o coleccionismo espanhol continua a ser muito centrado na pintura bidimensional.

Mas, hoje em dia, há muitos jovens artistas espanhóis que foram estudar e trabalhar para Londres, Berlim ou Nova Iorque e assim têm uma visibilidade e um trabalho "em rede" que, em Espanha, não conseguiriam. Não obstante, a presença de artistas espanhóis em exposições internacionais, como a Documenta e a Bienal de Veneza, tem sido escassa.

A Espanha precisa de uma espécie de Fundação Mondriaan, como no caso dos Países Baixos, uma instituição profissionalizada e transparente que permita realmente promover a arte espanhola internacionalmente.

A & L — No seu livro elabora uma relação entre a mercantilização e a autonomia da arte. O facto de uma peça de arte ser valiosa é necessariamente mau?
Paco Barragán — Não me interessa a oposição "mercantilização — autonomia da arte". Parece—me um discurso bastante cínico que se ouve a pessoas que se colocam numa suposta plataforma de moralidade, que geralmente se refere a directores de museus e professores universitários, ou críticos de renome, tipo Julian Stallabrass.

Tanto o director de um museu — que compra obras de arte para a sua colecção e realiza exposições com artistas contemporâneos — como o Sr. Stallabrass — que dá aulas numa faculdade e dessa maneira prepara os alunos para entrar no mercado de trabalho — estão a trabalhar para o mercado de arte.

Por outro lado, cada vez mais o sector empresarial e corporativo está a tomar uma posição activa no mundo da arte, tornando o privado público.

A & L — Como prevê que irão evoluir as feiras e o mercado de arte?
Paco Barragán — Creio que existirá uma crescente implicação corporativa que responde a objectivos de branding e comunicação. Com o passar do tempo, não haverá tantas feiras, e terá passado esta loucura actual. Irão sobrar duas ou três grandes feiras tipo Art Basel ou Frieze e o resto serão feiras pequenas, especializadas, que responderão às necessidades de um público em concreto. Por outro lado, profissões como a de galerista terão de reinventar-se; já não se trata de ter uns espaços enormes e ficar a maior parte do tempo na galeria. É preciso encontrar outro tipo de estratégias, ter espaços tipo show room e muito mais liberdade para mover-se local e internacionalmente. E também o artista tem de procurar um enfoque mais idea—based e não tanto production-based, ou seja, produzindo constantemente e não para projectos em concreto.

Por último, é preciso perguntar o que irá passar-se com o cada vez maior número de colecções privadas que procuram museus públicos para serem expostas, pois nem todas são boas nem se construíram com base nos critérios correctos.

por: Teresa Pearce de Azevedo

Outros artigos em Artualidades

Imagem associada ao destaque

What, me worry?

A capa que concebi para o n.14 da revista Artes & Leilões cruza uma série de referências gráficas, culturais e artísticas. Para um número da revista que se pretende...

Imagem associada ao destaque

África.cont abre em 2012

Envolto em acesas polémicas o África.cont - Centro Arte Africana Contemporânea, projecto estandarte com a chancela do governo, da CML e das mais prestigiantes instituições culturais do país -...

Imagem associada ao destaque

Rita GT|“Made in Europe, 10 year warranty”|Reflexus|17 Jan – 28 Fev

O título da exposição remete para um autocolante que a artista encontrou na mala que adquiriu para viajar para Berlim - cidade onde reside actualmente. "Made in Europe, 10...

NEWSLETTER

Insira o seu email e esteja a par de todas as novidades