
"O que pinto são anjos. Todas as minhas figuras femininas são anjos, aparições. As pessoas vêem-nas como eróticas, o que é perfeitamente absurdo. A minha pintura é essencial e profundamente religiosa" - as palavras de Balthus, dito conde Balthazar Klossowski de Rola, sobre as rapariguinhas que compõem o tema mais célebre e misterioso da sua obra começam por provocar inevitavelmente um sorriso.
Anjos estas jovens que expõem os corpos nus ou semi-vestidos com uma inocência equívoca? Religiosas estas pinturas que as representam em poses que vão do abandono lânguido ao arrebatamento sensual?
Não, as raparigas de Balthus não parecem anjos, mas meninas-mulheres surpreendidas na passagem à idade adulta e na descoberta do desejo. E a sua pintura religiosa surge profana pelo erotismo, além do mais perverso no fascínio adivinhado por jovenzinhas púberes. "Ninfitas", como lhes chamou Humbert Humbert, o professor que se perde de paixão por uma Lolita de 12 anos no mais famoso romance de Vladimir Nabokov, Lolita.
"Entre os limites etários dos nove e dos 14 anos ocorrem donzelas que, a certos viajantes enfeitiçados, duas ou muitas vezes mais velhos do que elas, revelam a sua verdadeira natureza, que não é humana, e sim nínfica" - escreveu Nabokov na pele de Humbert Humbert, explicando que as "ninfitas" se distinguem das crianças normais por "indícios inefáveis", como "o contorno ligeiramente felino de um zigoma e a esbelteza de um membro penugento", além de "características misteriosas", como "a graça desvairada, o encanto esquivo, astuto, abalador da alma e insidioso".
Nas suas ancas de rapaz e pequenos seios pontiagudos, e naquela estranha mistura de sensualidade e inocência, as raparigas de Balthus são autênticas "ninfitas", mas o fascínio do pintor não é o de Humbert Humbert. Ele assim o afirmou: "o tema da adolescente lânguida nada tem a ver com uma obsessão sexual, a não ser talvez no olhar do observador. Eu vejo as adolescentes como um símbolo. Nunca serei capaz de pintar uma mulher. A beleza da adolescência é mais interessante. A adolescência encarna o futuro, o ser antes de transformar-se em beleza perfeita. Uma mulher encontrou já o seu lugar no mundo, uma adolescente, não. O corpo de uma mulher já está completo. O mistério desapareceu."
A natureza incompleta, indefinida, inquieta, das raparigas-meninas era, pois, aquilo que nelas o seduzia. E também a sua beleza, em que via reflectida a beleza do divino, que celebrava, dizia, pintando como quem rezava. E havia ainda a nostalgia da infância que elas supostamente lhe despertavam.
Quanto às histórias perversas insinuadas nos quadros, partiam, afinal, de um desejo de denunciar através da pintura "tudo o que se esconde em nós", expondo "o ser humano despido da espessa camada de cobarde hipocrisia". Era a expressão de uma revolta interior, como afirmou Antonin Artaud, para quem Balthus criou os cenários e guarda-roupas dos Cenci.
Está explicado todo o mistério das "lolitas"... ou nem por isso. Com Balthus, nada é certo. Até o título com que se apresentava: há quem diga que o conde de Rola foi invenção sua...
A verdade é que era dado à ficção e gostava de rodear-se de uma aura de mistério. Quando, há 40 anos, a Tate Gallery lhe pediu dados biográficos para uma retrospectiva, a resposta obtida foi esta: "a melhor maneira de começar é dizer: Balthus é um pintor de quem nada se sabe. E agora vamos ver os quadros"...
Comparava-se a um gato, reivindicando para si a mesma natureza secreta, esfíngica e esquiva. Mas não era um gato qualquer, era o Rei dos Gatos, como anunciou num auto-retrato em que, elegante e quase arrogante, se fez acompanhar de um desses animais que admirava. "Vivam os gatos! E sentemo-nos no muro a observar as pessoas com a nossa desdenhosa ironia, enquanto elas correm como dementes e se portam mal" - escreveu, como rei dos felinos.
O gato marca, aliás, presença, nos espaços fechados, íntimos, onde as rapariguinhas de Balthus expõem os corpos nus em poses frontais e teatrais, repousam e sonham num langor suspeito, e se observam ao espelho como quem se interroga. É uma figura que surge com frequência, acompanhando cúmplice as jovens, observando atento os seus gestos, e participando de um mistério feito de múltiplas camadas de sentidos.
O fascínio por estes animais remonta à infância de Balthus, e a um desgosto: a perda de Mitsou, um gatinho que descobrira na rua. Inconsolável, contou a história dessa perda em 40 desenhos, espantosa catarse, a negro de tinta-da-china, de um rapazinho de apenas 11 anos. Os desenhos foram publicados com o apoio, e o prefácio, de Rainer Maria Rilke, o "pai espiritual" que Balthus encontrou na Suíça. Um país que para ele foi como uma pátria.
Balthus nasce a 29 de Fevereiro de 1908 em Paris, filho do pintor e historiador de arte Erich Klossowski e da pintora Elizabeth Dorothea Spiro (conhecida por Baladine), irmão do futuro escritor e desenhador Pierre Klossowski. Entre os amigos da família contam-se figuras como Rilke e Pierre Bonnard, e é numa atmosfera voltada para a arte e a cultura que se forma, afastado de uma escolaridade normal, o futuro pintor.
A guerra, que força os Klossowski, imigrantes de origem polaca com nacionalidade alemã, a abandonar a França em 1914, leva a família para Berlim, mas ao fim de três anos Erich e Baladine separam-se e ela vai com os filhos para a Suíça, onde reencontra Rilke. O poeta vai não só apoiar como inspirar o jovem Balthus, que colherá outras influências artísticas e literárias para a sua obra singular, em contactos com pintores e intelectuais amigos de Rilke e Baladine e viagens entre a Suíça, Alemanha, França e Itália. Nicolas Poussin e Piero della Francesca são dois dos mestres cujas obras estuda e copia pacientemente. A pintura da Renascença vai exercer um fascínio particular em Balthus, que se definirá como pintor convicto do figurativo, admirador dos grandes mestres e cultor do beau métier.
Pinta o seu primeiro quadro, uma paisagem de Muzot (Suíça), aos 15 anos, e faz a sua primeira exposição aos 21 anos em Zurique. A mostra, na Galeria Förter, passa despercebida, mas será bem diferente a primeira exposição de Balthus em Paris, para onde vai viver a partir de 1933.
Na Galeria Pierre, os quadros que Balthus revela em 1934 causam espanto, e escândalo, pelo erotismo agressivo expresso numa linguagem com ecos renascentistas, na atmosfera, na composição, num detalhe. Há uma Alice a pentear-se vestida com uma combinação curta que lhe revela o sexo, uma Rua onde um rapaz força uma rapariga perante a indiferença de transeuntes que parecem autómatos... Mas a obra mais perturbadora é uma perversa Lição de Guitarra, em que, segundo a descrição do próprio artista, "uma professora faz vibrar o corpo de uma rapariguinha depois de fazer vibrar as cordas de uma guitarra"...
Para os surrealistas, com quem Balthus inicialmente se liga, estas pinturas chocam mas não pelo tema. Se o erotismo as aproxima do surrealismo, a sua representação do real presa à observação afasta-as do movimento. Balthus acaba por renegar a ligação, bem como a provocação agressiva com que atraíra sobre si as atenções. "Em tempos gostava de chocar, mas agora isso aborrece-me" - afirmará anos mais tarde.
O erotismo vai manter-se, no entanto, na sua obra, que durante a guerra ganha um carácter mais introspectivo, como na série Le Salon, onde meninas dormem e lêem em posições bizarras. A guerra força o artista, que chega a ser mobilizado para a Alsácia, a refugiar-se na Suíça, com a mulher, Antoinette de Watteville, a rapariga que na Toilette de Cathy expõe o corpo nu diante de um homem que é o próprio Balthus. O nu é, com os jogos de cartas e os retratos, um dos temas que se impõem no pós-guerra. Tempo de Beaux Jours, pintura de um desejo que arde como fogo, exposta na Kunsthalle de Berna em 1946: ano que marca a estreia de Balthus nos meios institucionais mas também a separação de Antoinette e o regresso a Paris.
Em 1953 abandona a cidade e instala-se num castelo em Chassy, na Borgonha, onde pinta paisagens da janela do atelier e novas cenas de interior com "ninfitas". O modelo preferido é uma sobrinha, Frédérique, que acolhe no seu castelo, onde assume ares senhoriais: o conde de Rola nasce, aliás, nessa altura...
A sua fama espalha-se, e no início dos anos 60 é convidado por André Malraux para dirigir a Academia de França em Roma, a Villa Médicis, onde empreende uma restauração geral. A Villa ganha um novo élan... e Balthus também, com uma rapariga, Setsuko Ideta, que conhece no Japão, para onde é enviado em missão cultural. Ela irá tornar-se sua mulher e modelo de obras de um refinado erotismo de inspiração oriental, pintadas numa técnica que evoca o fresco.
É com Setsuko que Balthus deixa Roma em 1977, já depois de comprar um castelo em Monte Calvello (perto de Viterbo), para se instalar, com um luxo à altura da "estrela" em que se tornara, no Grand Chalet de Rossinière, na Suíça, onde permanece até morrer, a 18 de Fevereiro de 2001. As obras dos anos derradeiros incluem paisagens de Rossinière e Monte Calvello, suaves e quase irreais na sua atmosfera de tempo suspenso, e, claro, séries com "ninfitas", como uma, particularmente misteriosa, em que quem se olha ao espelho não é a menina mas o gato.
No último quadro do pintor, há um quarto com uma rapariga deitada num leito, um gato sentado numa cadeira, e um cão que espreita para lá da janela. É A Espera. De quê? Só Balthus (ou o gato) o sabe.

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