
Com um terço de presenças vindas de Espanha, a ArteLisboa 2008 viaja entre a pintura e a cibernética, entre o vídeo e a performance, questionando e testando novas propostas.
Em 2001 nascia a ArteLisboa. Em Novembro desse ano, no jornal Expresso, Alexandre Pomar era peremptório: "Lisboa também vai ter a sua feira de arte internacional, ou melhor, ibérica". O número elevado de galerias do país vizinho levou a que se falasse numa "invasão espanhola". Também na edição de 2008, entre as 70 galerias escolhidas destacam-se 25 vindas de Espanha, das cidades de Vigo, Barcelona, Badajoz, San Sebastián, Castelló, Málaga, Santander, Valencia e Oviedo. As galerias Ad Hoc, Alonso Vidal, Bacelos, Casa Borne, Del Sol St, Estiarte ou Marta Cervera são alguns exemplos.
Esta edição conta com várias estreias. Da Coreia vem a Aka Gallery, de Moçambique vem a Muvart e da Alemanha a Brot und Spiele. A Muvart – Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique – aposta na promoção da arte contemporânea moçambicana, além da programação regular da Bienal Internacional de Arte Contemporânea no Museu Nacional de Arte, em Maputo. Kay Neubert, galerista do projecto alemão, destaca as vantagens do formato da feira: “depois das nossas experiências em mega-feiras de arte, como Miami, aprendi que não são lugares para nós. O nosso trabalho tem uma componente conceptual muito forte, o que implica que a comunicação com o visitante seja muito importante e, desde logo, o público precise de tempo e paciência.”
Nas galerias nacionais destacam-se as estreantes Art Form, Bernardo Marques, Leonel Moura, Nuno Sacramento e Pente 10. Rui Macedo é um artista da Art Form, expondo também na Carlos Carvalho e na espanhola Vertice. O seu trabalho, "de grande variação formal e temática”, reflecte desde “as condições de visibilidade da pintura à exploração de jogos ópticos” nas palavras do crítico Celso Martins. Noutro sentido, a Galeria Leonel Moura dedica-se exclusivamente à obra robótica do artista que dá o nome à casa, bem como a projectos que questionam a articulação entre arte e ciência, que ele desenvolve. Uma arte emergente, que desemboca na produção de obras como Robot RAP ou até em pinturas de séries, como Para acabar de vez com a história da arte, apresentadas nesta edição da feira.
A recente Pente 10 também é uma estreia na ArteLisboa, apostando sobretudo na divulgação da obra de nomes consagrados da fotografia, como José Manuel Rodrigues, Manuel Luís Cochofel, Georges Pacheco, entre outros.
A segunda edição dos Project Rooms, um espaço de maior experimentalismo dentro da feira, conta com o comissariado de Paco Barragán, curador independente e gestor cultural de renome (com quem publicamos uma entrevista nesta edição). Entre os projectos seleccionados encontramos a Galeria Metta, com a obra de Chus Garcia-Fraile. A galeria portuguesa MCO vem representada por Fabrizio Matos, enquanto a Filomena Soares aposta em dois projectos, um deles defendido por Inês Botelho e o outro por Rodrigo Oliveira. O já referido Rui Macedo é o nome que a galeria Art Form (do Estoril) apresenta, enquanto que a 3+1 Arte Contemporânea optou pela dupla Sara & André e o seu projecto artístico que inclui desenho e performance. De Espanha veio Lidia Benavides, em representação da Estiarte, e Toño Barreiro da Casaborne (Barcelona). Finalmente, a galeria Brot und Spiele escolheu o artista belga Steve Schepens.
Ao fazer estas escolhas, as intenções de Barragán não podiam ser mais claras: "o que não quis de certeza fazer foi, como é habitual na maior parte das feiras e nas secções de Project Rooms, seleccionar um número de artistas cujas obras tinham sido apresentadas para um projecto dessa secção.” Entre os vários artistas que lhe agradaram, procurou encontrar um fio condutor entre eles, falando com as galerias e com os próprios artistas, chegando a incluir galerias que não tinham proposto um projecto, e convidando outras a participar na ArteLisboa pela primeira vez. "Painting and other Stories" é o nome genérico do programa por ele apresentado, dado que nas várias propostas essa é a base comum.
Todos os artistas seleccionados reflectem "de maneira formal, conceptual ou até literal" sobre o estado actual da pintura e mostram como esta se relaciona com o vídeo. Não deixa de ser curioso notar que entre os dez Project Rooms, cinco deles são de galerias internacionais, quatro espanholas (Metta, Estiarte, Marta Cervera e Casaborne) e uma alemã (Brot und Spiele).
"Painting and other stories" pode ser dividida em dois sectores, um deles mais formal, em que surgem agrupados Chus Garcia-Fraile, Ruth Root, Toño Barreiro e Fabrizio Matos. Todos eles parecem, pelo menos à primeira vista, partilhar um interesse mais formal na pintura.
O sector mais conceptual é formado por Sara & André, Lidia Benavides, Steve Schepens, Inês Botelho e Rui Oliveira.
Chus Garcia-Fraile opta por nos dar um olhar ampliado da realidade, partindo da fotografia para a pintura, passando pela manipulação de fotos de edifícios (com o Photoshop) e pela pixelização dos mesmos. As figuras que deveriam ser estáticas ganham vida e movimento.
Geometrismo, ousadia e desafio poderiam ser as palavras para definir a obra de Ruth Root, que terá ido beber inspiração a Mondrian e a Kelly. As ruínas contemporâneas são a fonte de inspiração para Fabrizio Matos, que começa por fotografá-las para depois criar composições pictóricas, em que se mesclam a pintura paisagista do romantismo e as influências da sétima arte, estabelecendo um diálogo entre paisagem e plateau.
Rui Macedo criou “In Advance of”, projecto que se desdobra em várias referências pictóricas a figuras históricas retratadas por Ingres, resultando em peças descentralizadas e propositadamente incompletas. “A fragmentação, o corte, a deslocação a que são submetidas as peças emolduradas sublinha justamente o campo das oposições: inteiro/fragmentado, centrado/deslocado, equilíbrio/desequilíbrio”, assim explica o artista.
A intervenção digital de Toño Barreiro desemboca em composições inesquecíveis nas quais deambulam imagens biomórficas. Ingres e o classicismo são os referentes por excelência na produção artística de Rui Macedo que os revisita e redimensiona criando pintura e instalação em simultâneo.
A instalação in situ Horror 46 é da autoria de Steve Schepens. Resume-se a 15 quadros que formam um castelo de cartas, no qual as imagens se espelham umas nas outras e onde se sugere que o visitante encontre as diferenças. Aqui, a comicidade e o sentido crítico andam de mãos dadas.
Inês Botelho opta por explorar questões que se prendem com o vídeo e a possibilidade de dotar a pintura de movimento, tendo como pano de fundo romantismo e construtivismo.
A única dupla presente apostou num projecto intitulado Claim to fame, apresentando uma instalação e uma performance, ao mesmo tempo que põem em causa rituais, padrões e arquétipos que encontramos na arte.
Lidia Benavides também é outra das artistas cuja obra se serve da fotografia como suporte, criando a partir dela universos repletos de sombras e de reflexos, em que a luz tem o papel principal.
Montanha russa, de Rodrigo Oliveira, questiona a relação entre a pintura e o volume, usando pequenos palitos (objectos do quotidiano) para construir uma estrutura que remete para a pintura clássica paisagista.
Paco Barragán defende que a pintura não se prende apenas com "o que se faz", mas também com "a forma como se faz", chegando a concluir que é "quase irónico o contexto no qual os processos digitais e as tecnologias vieram reposicionar a pintura num lugar de destaque".

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