Curadores procuram-se

O reconhecimento adquirido pela figura do curador de exposições na cena artística dos últimos 20 anos foi evoluindo muito e de muitas maneiras, despertando uma atenção crescente no meio da arte contemporânea. De resto, não raras vezes, a importância e visibilidade dos curadores chega a superar aquela que é alcançada pelos artistas.

Responsáveis pela concepção e organização das exposições, os curadores ganharam uma importância considerável desde os anos 90 quando o seu trabalho se impôs como determinante no processo de conduzir e mostrar ao público o trabalho dos artistas. São eles que procedem à selecção dos artistas que irão integrar os projectos expositivos e determinam que artistas poderão num dado momento ter maior visibilidade no disputado circuito da arte. O seu reconhecimento e fama chegam a ser invejáveis e nomes como Catherine David, Okwui Enwezor, Francesco Bonami, Hou Hanru ganharam um estatuto considerável no panorama artístico internacional ao terem desenvolvido trabalhos curatoriais que correspondem a novos formatos expositivos, e marcaram a sua época e a própria história das exposições. Hans Ulrich Obrist, por exemplo, foi nos anos 90 um comissário “nómada” que continuamente procurou estabelecer contactos e projectos de comissariado afastados dos núcleos considerados tradicionais da arte e do mercado/centros hegemónicos. Mais tarde, em 2002, viria a formar parte da equipa do Musée d’Art Moderne de La Ville de Paris e a dirigir a Serpentine Gallery em Londres.

Possivelmente, são ainda outros factores que poderão ter contribuído para a afirmação desta tendência que colocou a figura do comissário sob as luzes da ribalta. Por exemplo, é inegável o efeito “marca” associado a alguns destes profissionais, o que poderá estar relacionado com a sua influência na carreira de determinados artistas, ou ainda na sua faceta de relações públicas. Todavia, será sempre mais interessante pensar que nalguns casos a sua importância deve-se a partilharem os processos de criação com os próprios artistas que seleccionaram para encetar os seus projectos. E este é, indiscutivelmente, um aspecto interessante pois sempre nos habituámos a pensar no fenómeno da criação relacionando-o exclusivamente com os artistas. Nesse sentido a sua emergência ajudou a desmistificar a visão romântica do artista enquanto criador solitário.

Se atendermos à história da arte, este é um fenómeno recente. Porém, a verdade é que sempre houve organizadores de exposições, só que esse trabalho de bastidores permanecia no anonimato. Sobretudo na medida em que imperava também o paradigma de objectividade que anulava a evidência do carácter subjectivo que norteava a selecção, não existindo a consciência sobre o carácter autoral das exposições. Foi, nomeadamente, a partir dos anos 60, com Harald Szeemann, um dos comissários mais inovadores da arte contemporânea, que a figura evoluiu para as formas que conhecemos hoje. Comissário independente, Szeemann contribuiu de forma marcante para modificar o conceito de exposição ao ter afirmado uma perspectiva pessoal e particular na concepção das mostras que assinou e nos discursos e interpretações que veiculou através delas.

O trabalho do comissário nem sempre é de fácil definição, já que abarca uma série de tarefas implicadas na criação e organização de exposições. Apesar de não existirem regras ou convenções que definam as suas competências, são eles que afinal são os responsáveis por tudo: por seleccionar os artistas e as obras, pela apresentação das peças no espaço, pelo transporte, seguros, edição do catálogo, e pelos contactos com a imprensa e outros tantos detalhes associados à produção de uma exposição. Tarefas que, exigindo know-how não só artístico como de gestão de orçamentos, poderão ser desempenhadas por críticos de arte, historiadores, teóricos, artistas, conservadores de museus, galeristas… Assistimos hoje a uma maior profissionalização do sector com a criação e consolidação de licenciaturas e mestrados académicos na área de estudos curatoriais, apesar de existir quem advogue a dificuldade em ensinar-se curadoria. Mas esse argumento não demove os inúmeros candidatos aos cursos de mestrado no Goldsmith College ou no Royal College, ambos em Londres.

Cada comissário poderá ter a sua trajectória e modelos de eleição, o certo é que na maioria dos casos a grande meta é ocuparem-se da direcção artística de eventos como a Documenta de Kassel, a Bienal de Veneza ou a Bienal de São Paulo. Para a atingirem têm de cumprir um percurso obrigatório que exige trabalhar com artistas consagrados, estabelecer networkings e receber convites para a organização de exposições em museus reconhecidos.

Sendo importante dirigir eventos desta dimensão, que trarão sucesso à sua carreira, são ainda alguns os desafios que se colocam a estes profissionais, a quem se pede ideias rápidas e programas delineados de acordo com orçamentos muito reduzidos ou prazos muito escassos para a sua organização, sobretudo atendendo à grandiosidade dos eventos. No final, são igualmente esperados resultados claramente positivos em relação à sua capacidade de atracção de público.
Muito sensível tem sido a relação que tem vindo a estabelecer-se entre os comissários e os artistas. Fala-se pouco dela mas são já alguns os indícios da tensão criada. Se tradicionalmente são os comissários a seleccionar os artistas com quem querem realizar exposições, difícil será imaginar um artista a colocar um anúncio num jornal em busca de alguém que possa assinar o comissarido da sua exposição. Mas foi isso o que aconteceu quando Sophie Calle participou como representante oficial francesa na Bienal de Veneza de 2007 e decidiu seleccionar o comissário que deveria ajudá-la a realizar a sua mostra de uma forma inusitada: colocou um pequeno anúncio (1) em diferentes órgãos de comunicação, entre eles o Le Monde e a Artforum, tendo recebido várias candidaturas de interessados dirigidas ao seu galerista em Paris, Emmanuel Perrotin, nomeadamente a de Daniel Buren, o profissional que acabou por ser seleccionado.

(1) "Sophie Calle, artist selected to represent France at the 52nd Venice Biennale, looking for enthusiastic candidate for the position of exhibition curator. References required. Pay to be negotiated. Command of English desired. Send a CV and a cover letter to: scbiennale@galerieperrotin.com." (in Artforum, Summer 2006, p. 230)

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