A (Re)Invenção da Paisagem

Gabriela Albergaria: “Variações sobre um tema. Projectos 2006-2008”

Da árvore ao desenho. Da paisagem à sua representação. Da natureza ao artifício. Do cultura ao indivíduo. Da realidade à ficção. É entre estes e outros eixos que circulam os projectos artísticos de Gabriela Albergaria. Na base dos mais recentes, o jardim. O Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, apresenta uma mostra sintetizadora da visão particular da artista a residir em Berlim.

Os jardins de Gabriela Albergaria são mais do que um resumo do pensamento europeu sobre a questão do domínio da natureza pelo homem (onde aqueles têm um papel central). O que a artista vem mostrando é que as possibilidades para esta relação de domínio ou equilíbrio podem produzir-se através de processos mais complexos do que apenas os da organização de um espaço, por um lado, e da catalogação e ordenação das espécies vegetais (a própria botânica), por outro. E se é possível pensar a arquitectura paisagista, especificamente esta, como disciplina privilegiada para o estudo destas relações, será na arte que reside a possibilidade de criação de universos que farão apelo a ciências que contribuem para a compreensão do homem no seu relacionamento com a natureza e, em particular, com a paisagem. A artista constrói o seu próprio jardim: árvores renascidas da sua própria morte (Albergaria serve-se de árvores já mortas ou moribundas para o seu trabalho) ou prolongadas em desenho a partir de fotografias de jardins reais, apondo aqui imagens do real a construções representacionais.

Gabriela Albergaria discorre frequentemente sobre a memória histórica da criação daqueles espaços e, desse modo, sobre as razões políticas e sociais que lhe estão na génese. Processo que pode observar-se no Centro Cultural Vila Flor. Logo no primeiro piso, as duas caixas-jardim (2004) parecem querer dialogar com o seu homólogo do outro lado da janela. Mas é no piso superior da galeria que o trabalho da artista mais claramente se cruza com o jardim do edifício. Retomando o desenho, numa técnica que lhe é bastante particular a lápis de cor (o verde, essencialmente), a artista aborda aqui de modo exemplar o cruzamento entre uma memória efectiva e um potencial ficcional: fotografia e desenho unem-se num só objecto, fazendo transitar representações do real para possibilidades de um seu prolongamento. Em frente, as únicas janelas que permitem olhar o exterior (todas as restantes têm o estore corrido) deixam ver o jardim, acompanhado do interior por frases descritivas de momentos que lhe são históricos.

Na primeira peça que encontramos ao entrar no espaço de exposição são desde logo dadas algumas pistas para o trabalho de Gabriela Albergaria: uma maqueta intitulada Quatro Caminhos/ Duas Árvores (2007), correspondente à reprodução, por memória, de uma imagem de um parque na Alemanha. Cinco fotografias lançam então o desafio à percepção imediata do visitante: o que vemos são fragmentos de um jardim verdadeiro (ainda que intervencionado, como é sugerido pelos cabos metálicos que cingem os troncos das árvores)? A familiaridade denunciada em pequenos pormenores, numa espécie de botânica aplicada ao imaginário colectivo.

por: Gisela Leal

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