ARTCHIM!!!

O mercado de arte espirrou

Na noite de 15 de Maio de 1990, um industrial japonês, o Sr. Sato, comprava na Christie's em Nova Iorque o quadro Portrait of Dr. Gachet por 82,5 milhões de dólares, estabelecendo o recorde absoluto para uma obra de arte em leilão, e provando aos naysayers que o mercado de arte estava bem vivo e que o crash da bolsa em Outubro de 1987 não era mais que um acidente de percurso. Mais ainda, confirmava-se que o mercado de arte servia de refúgio para os capitais fugidos das bolsas e das incertezas do mercado de acções e imobiliário.

Respiraram fundo os que temiam uma recessão generalizada e encheram o peito de ar e de bazófia os protagonistas do mercado de arte. Para o expelirem duas noites depois nos salões da Sotheby's em Nova Iorque, quando o mesmo Sr. Sato comprou a 17 de Maio por 78,1 milhões de dólares o quadro de Renoir Au Moulin de la Galette.  "Hot Air", "loucura", "irrational exuberance", rezavam as parangonas dos jornais. O mesmo indivíduo gastara em duas noites a soma de 160 milhões de dólares, incalculável para a época!  (1)

Foi, na verdade, o toque de finados para o mercado de arte, que tinha abusado do seu período de graça de dois anos, e que num curto espaço de tempo mergulhou no mesmo abismo em que o mercado de acções se afundava, só dele ressurgindo nos finais dos anos 90. Os preços caíram vertiginosamente e as casas leiloeiras tiveram de despedir pessoal e fechar departamentos. Sirva de exemplo a nossa Vieira da Silva que, em 28 de Junho de 1990, vendeu em Londres na Sotheby's uma tela de 1948, Souterrain, pela fabulosa soma de 856 mil dólares (preço de martelo), quase o dobro da sua cotação anterior, para imediatamente cair a pique, não obstante a sua morte em Março de 1992 ter reavivado fugazmente o interesse na obra da pintora.  Só em meados de 2005 os seus preços atingiram de novo o meio milhão de dólares, a cotação anterior a Souterrain.

Voltemos ao presente: a 15 e 16 de Setembro deste ano, o enfant terrible dos Young British Artists, Damien Hirst, vendia mais de 140 milhões de euros de obras suas em apenas duas sessões da Sotheby's em Londres, usando a leiloeira como se galeria fosse, em detrimento dos seus galeristas usuais, num golpe de marketing magistral.  A sua obra mais cara, The Golden Calf , um vitelo em formol com uma tiara de ouro, atingiu os 13 milhões de euros!

Nesse mesmo dia, 15 de Setembro, Wall Street entrara em colapso, com a venerável Lehman Brothers a decretar falência, depois de ter sobrevivido ao grande stock market crash de 1929 e de, curiosamente, ter apresentado os maiores lucros de sempre no Verão de 2007. Indiferente às más notícias vindas de Nova Iorque - e, desde então, espalhadas pelo globo - o mundo gastava à farta vilanagem, como se não houvesse um depois de amanhã.  O fenómeno de marketing Damien Hirst tornava-se global, tendo acorrido compradores da China, da Índia e das Arábias. Só os coleccionadores americanos se abstiveram...

Estamos em Outubro quando eu escrevo estas linhas...em Novembro para quem as lê. Tenho medo de vaticinar infortúnios para o mercado de arte, não vá atrair o mau agoiro. Será que o período de graça de dois anos vai repetir-se, e os dinheiros que agora fogem de Wall Street tornarão a refugiar-se na arte, mantendo o mercado na alta em que presentemente se encontra? Ou será que esta recessão que se adivinha, e que vem a galope, e não de mansinho, vai rebentar com os tanques de formol do Sr. Hirst e deixar o vitelo dourado a apodrecer ao relento, nas mesmas bread lines em que todos nós comuns mortais nos encontraremos?

Por mais apetecíveis que sejam as maçãs de Cézanne, o estômago faminto pede frutos da árvore. E sem a Eva a enganar...

(1)   Antes de morrer com cancro, pouco tempo depois, o Sr. Sato escrevia em testamento que queria ser cremado com o Van Gogh e o Renoir, contrariando o ditado que nada se leva para o outro mundo. Onde estão os quadros?

por: José Pedro Paço d Arcos

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