
A actual exposição de Mafalda Santos na Galeria Presença, no Porto, decorre inicialmente da referência explícita a um texto que se propôs desvendar e mapear as principais exposições internacionais de grande envergadura, desde a queda do Muro de Berlim, a par dos principais acontecimentos políticos que tiveram lugar desde esse mesmo ano de 1989 ("The Manifesta Decade", MIT Press, 2005). A artista, não surpreendendo pelo processo de desenvolvimento de um discurso - porque coerente com a linguagem que vem utilizando nos seus trabalhos desde os primeiros passos expositivos - acrescenta com este trabalho uma nova vertente ao seu âmbito processual e de abordagem: a relação entre o universo artístico (e já não apenas o local) e a história mundial recente.
Resgatando o título ao ensaio que serve de ponto de partida à exposição, "One Day Every Wall Will Fall" situa-nos com clareza num período histórico onde o questionamento e redefinição de fronteiras - sejam geográficas, ideológicas ou comerciais - vem condicionando a reorganização política da Europa. Como um registo do ritmo cardíaco do mundo dos últimos 30 anos, as duas telas da entrada da exposição resumem numa abordagem aparentemente simples a complexidade da organização mundial. Talvez aqui se situe o principal ponto de interesse deste trabalho: a atribuição de uma linearidade imagética como que contraria - opondo-se até - a não-linearidade que serve de pressuposto aos sistemas de organização da informação no mundo contemporâneo.
Mas são simultaneamente outras as fronteiras de que aqui se trata e, nestas, a representação do não-linear assume outra importância: são as fronteiras do acesso à informação e da organização do conhecimento individual, correspondendo o mesmo período cronológico em análise ao momento em que foi criada (também no ano de 1989) e se vem desenvolvendo a mais famosa rede de informação: a world wide web.
Da representação do real histórico para a do virtual, Mafalda Santos prossegue então, servindo-se da figura da amostra de cores de um catálogo de tintas, para a representação da organização do espaço virtual. Neste novo universo, onde se cruza e condensa o conhecimento universal na potencialidade do desenvolvimento individual, as camadas de informação encontram-se comprimidas em pastas que, pela mão da artista, são agora representadas pelo movimento dentro do seu próprio espaço representacional - o ecrã. Agora em acrílico sobre tela, estas pastas e o movimento que reproduzem sugerem uma exploração da dissipação das fronteiras no acesso à informação.
No trabalho final, há como que um regresso ao ponto inicial da exposição (a caligrafia nas duas primeiras telas é agora substituída por um carimbo). Em Down Scroll, um desenho de grandes dimensões que se estende pelo chão vindo da parede, o esforço humano é representado por um caminho labiríntico, o mesmo que cada homem vai desenhando no seu processo individual de adaptação a um sistema de redes e de sedimentação do seu próprio conhecimento: a inevitabilidade do erro é acompanhada por um gradual espaçamento da acção.

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