
Se as grandes instituições americanas preferem camuflar a situação financeira em que vivem com medo de afastar a generosidade filantrópica sabe-se que o choque da crise económica tem afectado consideravelmente os orçamentos das instituições, delimitando a sua programação e a sua estratégia de internacionalização. Apesar disso há sinais de optimismo.
No passado dia 21 de Outubro, o Guggenheim Museum de Nova Iorque cumpriu meio século de existência com o emblemático edifício desenhado por Frank Lloyd Wright a ser celebrado com a iluminação festiva do Empire State Building, no dia do seu aniversário. Mas vivem-se dias de festa nas instituições culturais ou não tanto? O mesmo museu reduziu em 10 por cento o seu orçamento para despesas e gastos de funcionamento e este é apenas um exemplo de uma situação revelada por uma sondagem realizada em Fevereiro deste ano, junto de 40 museus americanos, que dava conta de uma baixa de 20 por cento nos valores da sua dotação orçamental. Já em 2008 ficou conhecida a grave situação do Whitney Museum que perdeu o seu mecenas da indústria do tabaco, Philip Morris, e viu afectada a sua saúde económica. Ainda este Verão, a instituição reduziu em quatro por cento a sua massa salarial e congelou os salários da equipe sénior. Além disso, o orçamento das despesas correntes foi reduzido em dez por cento, e a questão mais urgente que agora afecta a instituição, após a compra de um terreno para a construção de um novo edifício, é saber se haverá condições financeiras para suportar o funcionamento das duas estruturas.
O frenesim da construção e expansão de outros grandes museus também parece estar periclitante e, nalguns casos, como o do Guggenheim, a tão falada estratégia de expansão internacional parece ter sido travada, como prenuncia a recente revelação do abandono dos projectos de construção de filiais no Rio de Janeiro e em Guadalajara. As causas não parecem estar relacionadas com a polémica gerada pela construção destes novos museus nas cidades, mas sim com a crise económica, pelo menos no caso da cidade mexicana. Segundo o director de estratégia global da Solomon R. Guggenheim Foundation de Nova Iorque e também director da filial de Bilbao, Juan Ignacio Vidarte, a instituição irá concentrar esforços na construção do Guggenheim Museum de Abu Dhabi, com abertura prevista para 2013: "O único projecto que neste momento está vivo e em fase de desenvolvimento é o de Abu Dhabi, e eu acho que, num futuro imediato, continuará assim, porque é um projecto que requer uma grande atenção e dedicação.
Melhores são as notícias que chegam do Reino Unido. Depois do anúncio da redução do orçamento atribuído aos museus pela tutela para o período 2010-2011 em Julho deste ano e do impasse sobre a projectada ampliação do espaço do British Museum e da Tate (que remonta a Dezembro de 2007), devido à conjectura económica, chegou a notícia de que Gordon Brown, não obstante a crise, irá pôr em prática um plano de relançamento do sector cultural do país com a concessão de um investimento na ordem de 145 milhões de libras a instituições culturais. De acordo com este plano, que visa manter a qualidade da oferta cultural britânica, está prevista a ajuda à construção de um novo centro para o British Film Institut (45 milhões de libras) e subsídios aos projectos de extensão do British Museum e da Tate Modern, que terão apoios de 22,5 e 50 milhões de libras, respectivamente.
No caso do British Museum, o custo total da operação é de 315 milhões de libras e o projecto, ainda sujeito a aprovação, concebido pelo atelier de arquitectos de Lord Roger, Rogers Stirk Harbour and Partners, prevê a construção de cinco pavilhões de sete andares, com paredes de pedra e vidro. A extensão visa aumentar a capacidade de acolhimento do museu e a organização de exposições de maiores dimensões, assim como a existência de ateliers de conservação e laboratórios científicos.
Já a nova ala do edifício da Tate, um projecto de ampliação a cargo dos suíços Herzog & de Meuron, que poderá abrir portas em 2012, terá um custo previsto de 215 milhões de libras, e é uma resposta ao crescente e inesperado incremento do número de visitantes que o espaço acolhe desde a sua abertura no final dos anos 90.
Regressando ao mundo cultural do outro lado do Atlântico, a instabilidade sentida nos museus reflectiu-se na esfera de liderança das grandes instituições, coincidindo a renovação dos cargos de direcção com a campanha de Obama à presidência dos Estados Unidos. Desde 2008, foram pelo menos 12 os museus americanos que sofreram alterações nos cargos dirigentes. É o caso do DIA Art Foundation, palco de sucessivas mudanças de direcção que se iniciam com a renúncia de Michael Govan, em 2006 e, em 2008, com a resignação de Jeffrey Weiss (que esteve apenas nove meses na instituição), por sua vez substituído por Philip
pe Verne que confessa passar os seus dias a angariar fundos para ter um novo espaço em Manhatan, à altura do DIA:Beacon, que é o maior museu de arte contemporânea americano e um dos melhores museus do mundo.
Aqui fica o registo de uma história conturbada mas exemplar: o DIA:Beacon tem a maior área expositiva (22 mil metros quadrados) dedicada à apresentação permanente de obras de artistas da colecção que inclui nomes impressivos como Joseph Beuys, John Chamberlain, Walter De Maria, Dan Flavin, Donald Judd, Imi Knoebel, Blinky Palermo, Fred Sandback, Cy Twombly, Andy Warhol, Robert Whitman, Bernd e Hilla Becher, Louise Bourgeois, Hanne Darboven, Michael Heizer, Robert Irwin, On Kawara, Sol LeWitt, Agnes Martin, Bruce Nauman, Robert Ryman, Gerhard Richter, Richard Serra, Robert Smithson e Lawrence Weiner. Instalada numa antiga fábrica de embalagens da Nabisco (National Biscuit Company), é magnífica a montagem e o trabalho de adequação do espaço à apresentação de projectos artísticos que de outra forma não poderiam ser mostrados devido à sua escala e ambição. E se para chegar a Beacon, cidade situada a 90 quilómetros a norte de Nova Iorque, nas margens do rio Hudson, é necessário fazer uma viagem de cerca de hora e meia de comboio ou carro, garanto que a visita vale tudo. Oferece-nos a experiência de interacção com a grandeza a que um museu e uma colecção podem aspirar. Naturalmente, o poder económico permite muito, faz milagres, mas é necessário ter visão.
Olhando sobretudo para países como os Estados Unidos, onde a história e a falta de tradição vanguardista implicaram um esforço de iniciativa visionária na definição e génese do que se tornou hoje o mundo da arte contemporânea, é necessário valorizar a dinâmica proactiva que permitiu potenciar e congregar investimentos que projectam a arte contemporânea para uma outra dimensão.

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