
"Anos 70 Atravessar Fronteiras", neste momento no Centro de Arte Moderna, apresenta-se inevitavelmente como uma exposição histórica e, claro, imperdível.
Comissariada por Raquel Henriques da Silva, "Anos 70 Atravessar Fronteiras" é o resultado de um período extenso de investigação de uma equipa formada pela historiadora e também por Ana Filipa Candeias e Ana Ruivo. A primeira intenção era a de fazer uma exposição internacional, mostrando a crescente circulação de obras e artistas portugueses na época. Não sendo possível, a mostra tornou-se exclusivamente sobre os anos 70 portugueses.
A responsabilidade de representação de uma década levanta naturalmente discussão. Onde acaba, onde começa, como se delimitam fronteiras, como se mostram as inovações, as continuidades, as possíveis excepções. Balizas e opções, claramente expressas nos textos do catálogo da exposição, foram delimitadas pela curadora - são duas as datas que ajudaram a cingir o seu foco: 1969, data da inauguração da Fundação Calouste Gulbenkian e 1981, data do trágico incêndio da Galeria de Arte Moderna de Belém. A estratégia histórica também é clara, deixar de lado algumas obras de referência de artistas consagrados e optar por mostrar obras menos conhecidas, menos expostas, autores esquecidos, ou em plena actividade na década em estudo.
Naturalmente, então, "Anos 70 Atravessar Fronteiras" tenta mostrar outra visão que não a já investigada em exposições que tinham como foco as décadas de 60, 70 e em geral o nosso boom experimental da altura. Como por exemplo, "Perspectiva: Alternativa Zero" (Fundação de Serralves, 1997), "O Experimentalismo em Português entre 1964 e 1980" (Museu de Serralves, 1999), "Anos 60, Anos de Ruptura - Uma Perspectiva da Arte Portuguesa nos Anos Sessenta" (Palácio Galveias, 1994). Estas exposições colectivas têm vindo a ser complementadas ao longo dos anos com grandes antológicas dedicadas ao trabalho de artistas revelados ou muito activos durante os anos 1960-70, como, a título de exemplo, "Alvess" (2008), "E. M. de Melo e Castro" (2006) ambas no Museu de Serralves, ou mesmo "Trabalhos dos Anos 70" (2002) de Julião Sarmento no Museu do Chiado.
Espacialmente a exposição divide-se em três núcleos - na nave principal do centro de exposições do CAMJAP encontramos obras escolhidas sob o tema "Necessidade de Intervir: paisagem, espaços utópicos, espaços urbanos" o que engloba tanto abordagens à paisagem, ao dia-a-dia, como à reflexão sobre a situação do país em plena revolução de Abril. Percorremos muitas obras e autores que não viam "a luz do dia" dentro da sala de exposição provavelmente há muitos anos.
É inevitável referir algumas delas - Jaz Morto e Arrefece, o Menino de Sua Mãe de Clara Menéres, uma escultura "pré-revolução" apresentada pela primeira vez em 1973, numa exposição da Sociedade de Belas Artes ou Skop de Emília Nadal, uma enorme escultura a representar um "detergente ideológico for brainwash", por exemplo.
No piso 1 as obras apresentadas são igualmente interventivas mas dedicam-se à exploração de novos suportes e uma atitude fortemente conceptual, provavelmente já mais investigada e reflectida em diversas exposições nos últimos anos, como já foi referido.
Situado no piso 01, e organizado como a terceira parte da exposição, está o núcleo dedicado à criação gráfica da altura. Esta não é apenas uma sala de apoio documental com algumas curiosidades - é uma extensa e essencial componente da exposição - o público pode também recriar e reflectir esta década a partir dos seus materiais gráficos. Uma cronologia feita de cartazes é apresentada em toda a extensão da parede principal, acompanhada por vitrinas com publicações, convites e outros materiais impressos da altura. É também aqui que está a maior parte da componente vídeo, igualmente "preciosa" para quem não viveu esta época, para novas gerações - uma entrevista à galerista Dulce d'Agro, fundadora da galeria Quadrum, Noronha da Costa a fumar efusivamente ao mostrar a sua exposição na Galeria Buchholz em 1970 ou a inauguração dos ateliers municipais dos Coruchéus a 2 de Agosto de 1971. A visão da altura é complementada com entrevistas feitas hoje aos críticos José-Augusto França, Rui Mário Gonçalves e Egídio Álvaro.
Mas o suporte vídeo percorre também os outros núcleos expositivos. É imperdível o filme de Manuel Pires com música de Jorge Peixinho da performance Expansões I (1971) de João Vieira na Galeria Judite Dacruz, que inclui toda a interacção do público presente com as esculturas/letras, assim como o desfile de moda por entre os visitantes. A entrevista "Um Dia com Lourdes Castro" do arquivo da RTP, colocada perto das obras da autora, o programa "Obrigatório Não Ver" de Ana Hatherly - os "episódios" de Emília Nadal ou a performance de E.M. de Melo e Castro com Jorge Lima Barreto, ou o filme Roturas da própria Ana Hatherly complementado com fotografias de Jorge Molder da performance realizada na Galeria Quadrum em 1977.
É importante ainda salientar o refazer para esta exposição de algumas obras - Árvore Jogo/Lúdico em Sete Imagens Espelhadas de Alberto Carneiro, Portugal Novo de José Aurélio ou a intervenção no espaço urbano do grupo Acre originalmente feita na Rua do Carmo no Verão de 1974 e que agora renasce na Rua Dr. Nicolau de Bettencourt - círculos rosa e amarelo pintados no alcatrão mesmo à porta do Centro de Arte Moderna, "Grupo Acre Fez 1974 - 2009", lê-se.
Com tanto cuidado e investigação no que diz respeito às inovações e registos gráficos de uma década repleta de experimentações é pena que o catálogo da exposição, que contém inúmeros textos e informação de grande utilidade, seja tão pobre e pouco inventivo a nível gráfico. Afinal, à parte de outros registos, a vida desta exposição dependerá muito também do seu catálogo - um testemunho fulcral da que muito provavelmente será vista e referida no futuro como "aquela" exposição sobre os anos 70.

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