Dossier Coimbra | A Universidade

Entrevista a António Filipe Pimentel*

A Universidade de Coimbra (UC), a partir do séc. XIII, realiza um importante capítulo na história mundial dando origem a um património notável carregado de testemunhos históricos e artísticos. Por estas características únicas, a Artes & Leilões quis dedicar-lhe uma atenção especial e foi encontrar-se com o coordenador científico do dossier de candidatura da UC a Património Mundial (UNESCO), o Professor Doutor António Filipe Pimentel.

Artes & Leilões Em primeiro lugar, seria bom fazer-nos um resumo dos primórdios da UC, da sua evolução, e enquadrar a sua marca na história social, política e artística do país.

António Filipe Pimentel Ao falar-se em UC, ficamos com a noção de uma instituição regional e localizada, mas pelo contrário, devemos falar da universidade portuguesa em Coimbra enquanto instituição que foi a única até ao séc. XX, e que teve uma vida complexa do ponto de vista do seu estabelecimento geográfico, tendo-se sediado definitivamente a partir de 1537 em Coimbra. Em teoria, a universidade pode voltar a migrar sem perder o fio condutor em relação à entidade jurídica e moral que é desde 1290, facto que a insere no inner circle da primeira vaga das universidades europeias, embora quase no final desse período. Pertence, assim, a essa matriz embrionária da universidade europeia, o que a transforma só por isso em instituição de referência. A universidade é a mais rica instituição que a Europa e o espírito europeu criaram. Neste sentido, já estamos a falar num conceito de património da humanidade. A universidade tem uma história complexa: de 1290 a 1537, ela vai migrando. É formada em Lisboa, em 1308 vem para Coimbra, volta para Lisboa e finalmente regressa a Coimbra. Quando chega a Coimbra, em 1537, traz já um património histórico dos anos de vida que tem, algum património físico, sobretudo móvel (por exemplo, documentação) e vai ser ser alojada por D. João III no Paço Real de Coimbra, que era a decana das residências régias portuguesas, a mais antiga moradia real portuguesa e a mais prestigiosa, aquela onde o país se formou. Foi aqui que Portugal nasceu. No decurso dos sécs. XII, XIII, XIV e XV, continua a ser um pólo de referência, onde a coroação dos reis de Portugal teve lugar e onde os primeiros reis foram sepultados. É para a realeza um ponto de retorno contínuo. Nesse momento fundem-se duas matrizes: uma que é hoje fundamental, até em termos operativos, para a questão da candidatura a Património da Humanidade, ou seja, a universidade enquanto instituição com património que ela própria vai gerando, e o património régio que ela herda, que é central para a definição de Portugal como Estado-Nação, e que de então - dos outros 500 anos - ao presente lhe fica confiado.

A & L  Qual tem sido o contributo desta instituição na formação dos alunos para as Artes e para o Património?

António Filipe Pimentel  Trata-se de uma questão que tem a ver com o Etos, com a forma de ser universidade. Na UC há dois aspectos: um que a aparenta com as suas congéneres e outro que a singulariza. Aquilo que a aparenta é aquilo que faz parte da sua missão central enquanto espaço de ensino, de investigação, de formação académica; mas o que a singulariza é exactamente esse convívio com um tempo longo e com o património acumulado. Trata-se de um património não musealizado, no sentido de estar exposto para ser visto, mas que pelo contrário é mobilizado continuamente na nossa vida quotidiana onde o material e o imaterial se entrecruzam. Do ponto de vista da sensibilização para o património e para a cultura do património, surge uma dupla acção pedagógica, a da transversalidade da cidadania. Toda a comunidade universitária convive com esse património, se não no quotidiano, pelo menos nas ocasiões centrais e rituais de auto-celebração: na Sala dos Capelos é onde têm lugar as provas académicas de doutoramento e de agregação com o cerimonial secular, quase quotidianamente, a capela tem culto quotidiano, a biblioteca Joanina, evidentemente, não é utilizada mas os seus livros são mobilizados para a biblioteca geral da universidade onde são consultados, o Jardim Botânico, do séc. XVIII, é o espaço material e pedagógico da área da botânica e da investigação neste campo, os vários museus, etc. Do outro lado, há projectos de ponta, desde a formação em História da Arte, que tem em Coimbra um dos seus pólos de referência, à Arqueologia e à afirmação do departamento de Arquitectura, por exemplo, ou da licenciatura em Turismo, Lazer e Património. Há um projecto de formação (a cereja em cima do bolo) que vai arrancar este ano, que é o do Colégio das Artes. Este pega num nome célebre, Colégio das Artes, que é formado em Coimbra no Renascimento e que vive até à expulsão da Companhia de Jesus, no séc. XVIII, funcionando como escola e modelo do ensino das artes liberais e, por conseguinte, da cultura imaterial do Renascimento. Agora esse mesmo nome foi repescado, como espécie de marca, com o objectivo de criar um instituto de formação transdisciplinar, ao nível de estudos pós-graduados, que faça interagir as várias vertentes das artes performativas criativas, aplicadas à História da Arte. É um modelo de vanguarda onde se pretende uma formação para o património e uma sensibilização para a cultura artística, no sentido de que esta tem de ter dois pés: um no passado que a alimenta, outro na criação e no futuro. Pelo meio, surge a cultura imaterial, o tal espírito de Coimbra, se assim se entender, que vai desde a canção à praxe passando pelas tradições, os rituais universitários, o cerimonial da universidade e todo o convívio que se gera em torno disto.

A & L  Há pouco mais de um ano, foi assinado o Protocolo de Apoio do Governo à Candidatura da UC a Património da UNESCO numa cerimónia que teve lugar na Biblioteca Joanina. Quais são as especificidades da Universidade de Coimbra que justificam esta candidatura?

António Filipe Pimentel  Aquilo que justifica a candidatura é esse silogismo central: a UC foi a instituição formadora das elites culturais e administrativas do país ao longo de séculos. A projecção da universidade no que se pode designar de mundo português é determinante.

A & L  Que áreas integram essa candidatura?

António Filipe Pimentel  No fundo, a grande dificuldade que encontramos é o facto de não haver modelos que lhe pré-existam e nos quais possamos verdadeiramente apoiar-nos. Candidatamo-nos, não com uma realidade material, mas sim com um bem imaterial que é a UC, evidentemente também na sua materialização. A partir daí houve a necessidade de seleccionar, numa cidade onde universidade e cidade se fundem e interligam de maneira tão íntima como acontece em Coimbra, uma área onde se materializasse mais claramente esse legado e essa presença, e uma área envolvente que funcionasse como área de protecção. Esta candidatura abrange assim duas áreas: uma é, naturalmente, a colina universitária até à Baixa, até Santa Cruz, englobando o Mosteiro de Santa Cruz que é uma âncora fundamental na transição definitiva da universidade para Coimbra, e a outra é a Rua da Sofia.

A & L  O Museu de Ciência da UC recebeu a Menção Honrosa para Museu do Ano da Associação Portuguesa de Museologia (APOM) em 2007, tendo sido ainda galardoado com o Prémio Micheletti de melhor museu europeu do ano de 2008, na categoria de ciência e tecnologia, pelo Fórum Europeu dos Museus, em Dublin...

António Filipe Pimentel  Ver o Museu da Ciência quase que dispensa fundamentação. Este primeiro pólo do museu é o território experimental, é a vanguarda do que será o grande Museu da Ciência, a ser abrigado no edifício fronteiro, que é o Museu de História Natural. Ambos fazem parte do seguimento da arquitectura pombalina da universidade iniciada em 1772. A ideia da arquitectura contemporânea é não deixar perder esse legado e continuar no mesmo patamar. Já o laboratório químico é o mais antigo em funcionamento no território europeu. Todos estes factores implicam uma reabilitação qualificada. O premiado arquitecto João Mendes Ribeiro intervém com o objectivo de reabilitar esse património e de adaptá-lo igualmente a Museu da Ciência.

A & L  Qual é o objectivo do Museu da Ciência e qual é o interesse deste tipo de acervo para o público em geral?

António Filipe Pimentel  A universidade tem colecções notáveis de património científico antigo, como por exemplo a colecção do Real Gabinete de Física. O Museu da Ciência pegou nesse material e a partir dele construiu uma exposição contemporânea, um programa museológico e pedagógico que tem por tema "A Luz e a Matéria". Este resume as grandes coordenadas do mundo do conhecimento da Física, com a mobilização de uma parte insignificante do acervo; a outra parte dirá respeito às outras vastíssimas colecções que serão objecto do segundo grande pólo do Museu da Ciência, que é o edifício da frente. Com os meios contemporâneos (multimédia, interactivos, experimentais, etc.) criou-se um espaço profundamente apelativo e pedagógico onde o aluno de hoje ou pessoas de qualquer idade conseguem perceber uma lição de Física e Ciência aplicadas, experimentando elas próprias a partir do acervo histórico.

A & L  Se, no passado, a universidade moldou Coimbra fazendo dela a capital do saber e da cultura que durante séculos se impôs no país de modo único, qual é hoje a sua relevância?

António Filipe Pimentel  Essa formação para a cidadania, partindo das artes e da cultura, transcende o mundo da cultura tornando-o operativo e instrumental da própria questão da cidadania. A cidadania é de todos, assim como é o património. Este é transversalmente mobilizador de todas as capacidades técnicas, de serviços, de todas as áreas de intervenção e saber. É a área de projecção da cidadania na qual, do meu ponto de vista, é possível gerar maior rentabilidade de índices de crescimento, mais-valias económicas, etc. Não há qualquer área que escape ao património (engenheiros, químicos, físicos, pedreiros, arquitectos, os saberes tradicionais, as tecnologias de ponta, os serviços, os restaurantes, os hospitais). É um espaço multicultural. Não pode haver melhor educação para a cidadania do que demonstrar isto tudo e demonstrá-lo a gente jovem que está ainda como mata-borrão a perceber as coisas. Penso ser esta a grande vantagem de uma candidatura destas, em torno de uma universidade. Não há nada mais ligado aos jovens que a universidade, que a escola onde se formam, onde vivem.
A universidade está hoje, felizmente, metida numa rede de concorrência que a estimula, dividindo o palco com outras. Apesar de tudo, a UC continua a estar, nos rankings internacionais, afirmada num patamar de excelência em várias áreas como a melhor universidade portuguesa e muito acima de inúmeras outras. A UC é ainda imbatível pela ligação à memória ou à ligação sentimental, se se quiser. Retirando à palavra sentimental a conotação piegas, é um espaço mítico de referência. O que projectou a universidade no mundo enquanto instituição é o facto de ser um espaço aberto. Projecta-se no e para o mundo. Está aberta e recebe estudantes e professores de toda a parte. A universidade é a primeira instituição que tem o chip da globalização dentro do seu ADN, desde sempre, e se o não fizer está a trair a sua missão.

 

* António Pimentel é professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, director do Instituto de História da Arte (UC) e investigador de Estudos Multidisciplinares em Arte. A par das competências nas áreas do Património e Turismo, é ainda especialista em Património Universitário e é, presentemente, director do Museu Grão Vasco em Viseu.

 

por: Alexandra Cardoso

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