Quick, Quick, Slow

ExperimentaDesign no Museu Colecção Berardo

Numa época em que como nunca o tempo voa e nos sentimos asfixiados pela sua castradora e ininterrupta contagem importa parar, analisar retrospectivamente e definir prioridades para um futuro que se adivinha igualmente acelerado. Com a mostra "Quick, Quick, Slow", em torno do design gráfico, a ExperimentaDesign convida-nos a pausas reflexivas incentivadoras de posturas e acções alternativas.

"It´s About Time" (na realidade everyting is always about time) é a temática da edição deste ano - a décima - da ExperimentaDesign, bienal internacional dedicada ao design, à arquitectura e à criatividade (numa abrangência mais lata) que marca o seu regresso a Lisboa voltando a apostar numa programação consolidada e incontornável que agitará o panorama artístico-cultural da cidade até meados de Novembro. O conceito de tempo, da sua passagem, aparentemente objectivo, suscita um manancial de problemáticas e polémicas susceptíveis de serem analisadas sob diferentes e antagónicos ângulos. Na sociedade de consumo e do espectáculo em que vivemos sentimos que o tempo é relativo e nos foge por entre os dedos correndo à velocidade da luz. Um abrandamento reflexivo, potencializador de novas equações que definam prioridades, afirma-se como urgente porque afinal não temos todo o tempo do mundo nem o tempo volta para trás. A ExperimentaDesign, dirigida por Guta Moura Guedes, através das suas propostas programáticas, contribui para repensarmos conceitos e equacionarmos alternativas social, económica e humanisticamente mais responsáveis articulando-as com análises e projectos oriundos de diferentes áreas e latitudes da produção contemporânea.

No plano expositivo as principais sugestões materializam-se na produção de quatro mostras destacando-se "Quick, Quick, Slow (Texto, Imagem e Tempo)", patente no Museu Colecção Berardo até dia 29 de Novembro com comissariado de Emily King, como a mais ecléctica das propostas na medida em que reúne um conjunto de diferentes suportes (material impresso, projecções vídeo e peças digitais) em torno da exploração da noção do tempo nas suas vertente de movimento, aceleração e fluxo no âmbito do design gráfico (mas também animado). Sendo que a abrangência da disciplina é entendida enquanto reflexo privilegiado de transformações ocorridas em diversas vertentes da realidade cultural de determinado período (a passagem do tempo contamina a criatividade), acaba por extrapolá-la. Tratando-se de um olhar retrospectivo, a exposição cobre um arco temporal que vai desde o início do séc. XX (com referências à ousadia modernista) até aos últimos avanços tecnológicos colocados ao serviço da criação (concepção de screensavers, por exemplo). Organizada em cinco núcleos (secções sequenciais mas não dispostas cronologicamente) - "Tempo de Vanguarda", "Dinamismo Comercial", "Batidas Perdidas", "Estratificação Digital" e o "Momento Pós-Milénio" - agrega um total de cerca de 150 objectos da autoria de 60 autores provenientes de diferentes épocas, latitudes e correntes.

 

A ousadia de reunir numa mesma mostra um conjunto de peças que dificilmente se enquadram na categoria de design (na sua acepção mais imediata) que se repartem entre livros, revistas, cartazes, videoclips, filmes, animações digitais, banda desenhada, entre outras - de criadores tão díspares como Marinetti, Sol LeWitt, Peter Saville, M/M, Truffaut, Picabia ou Marjane Satrapi - se tem o mérito inerente de cativar franjas diversificadas de espectadores (nomeadamente em termos de faixas etárias) não consegue de forma eficaz contornar a estranheza suscitada que acaba por não ser minimizada pelo fornecimento de matérias de apoio que permitam, por parte do grande público, uma contextualização e percepção dos pressupostos curatoriais inerentes. Leituras não lineares mas interligadas entre o passado, o presente e um futuro que se adivinha lançam, no entanto, importantes e incontornáveis pistas interpretativas recordando que o design funciona como um privilegiado espelho reflector de dinâmicas vanguardistas.

por: Cristina Campos

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