As camadas da pintura

Bruno Pacheco na Culturgest Porto

Dois anos depois da exposição em Lisboa, Bruno Pacheco regressa à Culturgest, agora no Porto, para apresentar quatro trabalhos inéditos onde prossegue, reafirmando estratégias, a sua pesquisa sobre os mecanismos e processos da pintura.

 

Sendo o trabalho do artista marcadamente assente na prática da pintura, será no entanto numa postura de recusa da assunção de um qualquer estilo hermeticamente determinado que Bruno Pacheco ancora o seu trabalho. No caso desta exposição, é, em primeiro lugar, um conjunto de 16 pinturas a acrílico sobre papel que é apresentado como último exercício sobre as possibilidades de variação sobre um tema. Uma linha (The Sinking Line) conduz e unifica a leitura do trabalho. É desta aproximação genérica às pinturas que se parte então para o reconhecimento das particularidades de cada uma, das características que as distinguem: são variações de enquadramento, de jogo com os limites do suporte, de cor, de luz, para se chegar finalmente à questão principal colocada pelo artista: a dos limites da materialidade da superfície pictórica.

Explorando as possibilidades de reprodução de uma imagem pelos processos e técnicas da pintura, o artista está a questionar os próprios limites físicos (ou a sua ausência) que distinguem a superfície bidimensional das obras tridimensionais. The Sinking Line proporciona simultaneamente uma experiência de intimidade com o trabalho de atelier, ao transportar o espaço de experimentação do artista, para o espaço de experienciação do espectador.

À semelhança do anterior trabalho Trophies (de 2006), através da obra sem título que integra esta exposição (e única apresentada na sua anterior individual na Marz Galeria, entre Maio e Junho passados), a reciclagem dos materiais utilizados durante o trabalho de pintura infiltra-se novamente no espaço expositivo. Desta vez, não são já as taças de um qualquer campeonato de resistência artística, mas antes, e de novo, o seu reenquadramento num objecto escultórico. O peso do cimento em que se inserem dois recipientes de plástico "sujos" de resíduos de tinta contrasta simultaneamente com a transitoriedade do uso primário do próprio objecto. A sua fixação a um bloco de cimento confere-lhe a espessura e o peso (literal e metaforicamente) do exercício artístico e da sua inclusão na história da arte e tradição modernista.

É de facto num visível e eloquente diálogo entre pintura e objecto que se situa toda a exposição. O argumento mais assertivo na exploração desta questão de fundo da arte será o trabalho A Pot of Gold at the End of the Rainbow (acrílico sobre caixas de madeira). Como à procura do ouro no fim do arco-íris, Bruno Pacheco ensaia casos de oportunidade para a(s) resistência(s) da pintura na arte. Revestida de auto-referencialidade na arte, a sua obra assume assim um particular carácter de ensaio sobre os caminhos para a pintura contemporânea. "Ainda Não" parece querer deixar entrever que eles são potencialmente vários e ainda incertos.

por: Gisela Leal

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