De Guzarate a Lisboa

A propósito de um importante escritório de “laca do Guzarate” para o mercado europeu, circa 1570-1600, da Jorge Welsh Porcelana Oriental e Obras de Arte. 

De tempos a tempos aparecem no mercado de antiguidades peças tais como este escritório que independentemente do seu valor comercial e raridade óbvios ajudam a deslindar algumas das dúvidas acumuladas e que são uma bênção para os estudiosos e interessados em determinada área da produção das artes decorativas. Reconstruir e explicar o passado são por vezes tarefas ingratas por falta de elementos de estudo. A produção de mobiliário com madrepérola do Guzarate é um desses sectores onde as lacunas e as dificuldades são múltiplas.  O marco de referência no estudo deste tipo de mobiliário continua a ser o precioso artigo de Simon Digby: “The mother-of-pearl overlaid furniture of Gujarat –The Holdings of the Victoria and Albert Museum”, publicado em Facets of Indian Art (1986) a colectânea de textos de um simsio no Victoria and Albert MusConjunto de objectos construídos de placas de madrepérola, Guzarate, Sécs.  XVI-XVII, colecção do British Museum, Londreseum. O único outro estudo a mencionar é “Uma família de Objectos Preciosos do Guzarate” de José Jordão Felgueiras publicado no catálogo da exposição a Herança de Rauluchantim (Museu de S. Roque,1996) que através de inventários portugueses da época consegue provar que um sem número de preciosidades de madrepérola mencionadas por viajantes contemporâneos como Linschoten e Pyrard de Laval chegaram de facto a Portugal na época e integraram colecções e tesouros reais e da nobreza portuguesa. O facto de em colecções antigas portuguesas existirem, deste grupo de objectos, quase só cofres deve-se possivelmente ao desgoverno e às atribulações da sociedade civil, tendo sido a Igreja e as ordens religiosas que se revelaram os mais fieis depositários destes tesouros e que por motivos relacionados com o culto detinham sobretudo cofres usados como hostiários e relicários.  Face do tabuleiro de xadrez do Bayerish National Museum, anterior a 1571 | 51 x 50,2 cm

Escudo com trabalho de embutidos de madrepérola em laca, Guzarate, circa 1580,  Museo Nazionale Bargello, Florença | Diâm. 59,4 cm

  

 

 

 

 

 

Há a considerar dois tipos distintos de trabalho em madrepérola das oficinas do Guzarate: objectos só em madrepérola, por vezes com estrutura de madeira ou com elementos de latão para maior rigidez, mas sempre revestidos totalmente de pequenas placas de madrepérola, quase sempre fixadas por pinos de latão ou de prata.

O outro grupo ao qual pertence este escritório é o de objectos e móveis com estrutura de madeira decorados com desenhos formados por pequenas placas de madrepérola embutidas em laca a que alguns autores chamam laca do Guzarate ou massa preta.

Parece que estas duas modalidades de trabalho de madrepérola foram praticadas em simultâneo nas mesmas oficinas como sugere o estudo de vários objectos que chegaram até nós e que apresentam os dois tipos de trabalho. São exemplos que parecem confirmar esta presunção o tabuleiro de xadrez e gamão do Bayerish Nationa Caixa par material de escrita da David Collection | Alt. 8 cm, larg. 30 cm, prof.. 8 cmMuseum (Catálogo da exposição Exótica nº 21) e a pequena caixa para canetas do David Collection (Art from the World of Islam nº 442), ambos conjugando trabalho de embutidos em laca com áreas revestidas a placas de madrepérola fixadas com pinos de latão.

Não há informação fundamentada sobre a origem desta indústria de embutidos em madrepérola na Índia. Há notícia de obras de embutidos de madrepérola a partir do séc. XV. Digby menciona um cenotáfio (monumento funerário) em Ahmedabad, no Guzarate, datável a 1460 que foi embutido com madrepérola, a referência mais recuada a este tipo de trabalho na Índia (1). Babur o primeiro Imperador Mogol (avô de Akbar) conta nas suas memórias, o Babur–nama, em passagem referente a Setembro de 1529, quando em campanha no Norte da Índia, ter enviado  vários presentes para o seu filho Hindal em Kabul, nomeadamente um tinteiro embutido e um banco trabalhado em madrepérola (2).

Sendo a arte de embutir madrepérola uma tradição oriental, parece provável que os artífices indianos se tenham Cofre para sutras, laca com embutidos de madrepérola, Coreia, sécs. XIII-XIV | Comp. 46 cmoriginalmente inspirado num protótipo possivelmente chinês ou coreano. Na China o trabalho em laca remonta pelo menos à Dinastia Shang (1766-1123 a.C) e o de embutidos de madrepérola em laca à época Tang (618-906). Da Dinastia Ming, (1368-1644) contemporânea dos Sultanatos do Norte da Índia e do Império Mogol, período em que foram produzidos os móveis de laca do Guzarate, chegaram até nós peças de laca com finíssimo trabalho de embutido a madrepérola, utilizando pequenos segmentos deste material iridescente para formar cenas figurativas e padrões geométricos em peças sumptuárias. É também de notar a semelhança de algumas caixas para sutras (escrituras budistas) coreanas do período Koryo (sécs. XIII-XIV), tanto nos padrões geométricos do desenho de madrepérola embutida em laca como no próprio modelo dos cofres de tampa tronco-piramidal e nas fechaduras, tal como no cofre do British Museum, Londres.

A qualidade e natureza do trabalho de embutidos de madrepérola do Guzarate varia grandemente. Será provável que tenham existido várias oficinas a produzir estas Baldequino do túmulo de Nizam ad-Din em Delhi,1608-1609peças com graus diferentes de perícia. A qualidade, as tipologias e os desenhos parecem também ter evoluído durante os cerca de século e meio ou dois séculos em que estas obras foram produzidas, provavelmente num processo de adaptação à procura nos diversos mercados de exportação.

Elementos-chave para o estudo do trabalho de laca do Guzarate são os baldequinos de dois cenotáfios, um deles o de Shah Alam, em Rasulabad, e o outro o de Shaykh Ahmad Khattu, em Sarkhej, ambos perto de Ahmedabad., assim como o de Shaykh Niza al-Din Awliya, em Deli. Em estados diversos de conservação, permitem no entanto aferir que estão revestidos com trabalho semelhante ao do mobiliário de exportação. Os três cenotáfios foram provavelmente mandados construir pelo mesmo mecenas, um nobre mogol, Murtaza Khan, que serviu como governador do Guzarate entre 1605 e 1608. O seu nome é mencionado nos versos dedicatórios dSandálias de “puja”, Royal Danish.o baldequino de Delhi, datável a 1609 (3).
Parece-nos poder considerar três tipos de peças de laca do Guzarate: as produzidas para o mercado local, as destinadas ao mercado de exportação islâmico e as de encomenda europeia.
Não sabemos da sobrevivência de qualquer peça destas na Índia, exceptuando os acima mencionados baldequinos. No entanto, alguns dos objectos guardados em colecções estrangeiras podem ter sido feitos originalmente para clientes indianos. É certamente o caso de um par de sandálias de “puja” (destinadas ao culto hindu) guardadas na Kunstkammer Real da Dinamarca (4).
Cofre do Convento das Dezcalzas Reales, Madrid, meados do séc XVI (?) | 40 x 55 x 32 cmPelo contexto histórico é de supor que as exportações para o mundo islâmico, com destaque para o Império Otomano, sejam anteriores ao comércio orientado para os países europeus. Convém entretanto notar que alguns objectos, sobretudo cofres com óbvia tipologia e desenho islâmicos, ingressaram em colecções reais europeias no séc. XVI e seguinte, exactamente pelo seu valor exótico e beleza e como testemunhos da diversidade e num espírito de fascínio pelas novidades de um mundo que estava então a ser “descoberto”. Tal é o caso do cofre das Descalzas Reales de Madrid (inv. Nº 00612591), possivelmente um dos cofres de madrepérola enumerados no inventário de Joana de Áustria de 1553 (5).Da mesma tipologia e também de grande qualidade de execução é o cofre guardado no VictorDa mesma tipologia e também de grande qualidade de execução é o cofre guardado no Victoria and Albert Museum, Londresia and Albert Museum, Londres.
Estes cofres, assim como o escritório da Jorge Welsh, estão decorados com um desenho geométrico e vegetalista estilizado que embora de feição islâmica é típico das artes decorativas do Face superior do cofre do Victoria and Albert MuseumGuzarate, mostrando um vocabulário decorativo que incorpora árvores estilizadas com copa em forma de coração invertido, palmeiras com rosáceas, etc., atribuível aos Sultanatos do Norte da Índia do período pré-Mogol. A face superior do cofre do Victoria and Albert , no entanto, assim como outros cofres, apresenta um trabalho do tipo que Digby classifica de post-Timurid internacional (6) com os seus arabescos e movimento de sugestão caligráfica de grande elegância e precisão.Um “Qalamdan” (cofre para calígrafo) actualmente no Museu Benaki em Atenas, obra de grande requinte e que tem “Qalamdan” do Museu Benaki, Atenas, datado 1587 | 36 x 65 cmversos persas e árabes em embutido, assim como o nome do seu autor Shaikh Muhammad Munshi Ghaznavi e a data 1587, apresenta caligrafia e um desenho islâmico de elevado nível de execução.
À medida que os portugueses conseguiram dominar o comércio do Índico e substituir-se aos comerciantes árabes e otomanos como mediadores entre a Índia e a Europa e à  medida que os interesses comerciais europeus foram ganhando força, sobretudo a partir de 1601 (com a abertura das feitorias inglesa e holandesa em Surat), a produção de mobiliário de exportação adquire contornos mais adequados ao gosto europeu de então. Temos, no entanto, e de acordo com os indícios de que dispomos, de presumir que tenha continuado o comércio destes artigos do Guzarate para o mundo islâmico, o que torna uma sistematização e cronologia ainda mais problemáticas. 
A exportação de mobiliário decorado a madrepérola do Guzarate é anterior à época Mogol. Gaspar Correia menciona a oferta a Vasco da Gama pelo rei de Melinde, na Costa Oriental de África, em 1502, de um maravilhoso leito de Cambaia trabalhado a ouro e madrepérola (7). Abula Fazl, ministro de Akbar e cronista do reino, ao fazer o levantamento dos recursos do Império Mongol no seu A’in-i Akbari (circa 1595), descreve a província do Guzarate como o centro de uma série de exportações: “Painters, seal-engravers and other handicraftsmen are countless. They inlay mother-of-pearl with great skill and make beautiful boxes and inkstands” (8).
Escritório alemão, séc. XVINo seu Itinerário publicado em 1596, o viajante holandês Linschoten menciona que em Sind, junto da embocadura do rio Indo, “fazem todo o género de escrivaninhas, armários, malinhas, caixinhas, bastões e mil outras bugigangas e curiosidades semelhantes, todas embutidas e lavradas com madrepérola, sendo tudo levado para Goa e para Cochim, na altura em que os navios portugueses ali estão para carregar (9). O francês François Pyrard de Laval, observador atento do que viu na Índia entre 1601 e 1611, deixa-nos um dos testemunhos contemporâneos mais esclarecedores sobre a produção de mobiliário para exportação na Índia do início do séc. XVII. Descrevendo o reino de Cambaia (Guzarate), entre outras informações, conta: ”Ils ont encore des cabinets à la façon d’Allemagne, à pièces raportées de nacre de perle, ivoire, or, argent, pierreries, le tout fait proprement.” (10). Referia-se aos pequenos escritórios de tampo de abater com uma gaveta central maior rodeada de pequenas gavetas decorados com embutidos de madeiras diversas, produzidos pelas oficinas de Ausburgo e Nuremberga a partir de meados do séc. XVI e durante o XVII, muito populares em toda a Europa.
O Escritório de embutidos de madrepérola em laca da Jorge Welsh é um elemento possivelmente único e de grande Tampo do escritório da Jorge Welshrelevância como exemplo recuado ilustrando a transição de modelos islâmicos na aurora formativa de um mercado de exportação de mobiliário exótico da Índia para a Europa, que iria manter o seu fulgor até, pelo menos, ao séc. XVIII. A tipologia deste móvel corresponde plenamente aos modelos em voga na Europa de então. Que tenhamos notícia e apesar das diversas menções contemporâneas a escritórios de madrepérola, apenas encontramos um outro escritório de embutidos de madrepérola em laca do Guzarate publicado por Digby, este com uma decoração já muito mais próxima dos numerosos escritórios afins em que o marfim substitui a madrepérola, mais um passo na aproximação ao gosto e técnica europeus.
O escritório da Jorge Welsh, embora já não cultive a sinuosidade de formas quase caligráfica de embutidos de alguns dos exemplares destinados ao mundo islâmico, conserva os padrões decorativos dessa era com elementos tais como a árvore com copa em forma de coração Cofre do Convento das Dezcalzas Reales, Madrid, meados do séc XVI (?) | 40 x 55 x 32 cminvertido e a palmeira estilizada com rosáceas que são motivos centrais num cofre de tipo islâmico como o das Descalzas Reales em Madrid  Digby menciona a existência de mais dois escritórios neste tipo de trabalho cuja descrição corresponde ao modelo do presente (poderá este ser um dos ditos escritórios que o autor teve ocasião de inspeccionar anos atrás?). Todo o interior do móvel está decorado com um trabalho pintado a vermelho de tipo vegetalista que encontramos em muitas peças do Guzarate atribuídas aos sécs. XVI e XVII. A Escritório com pintura semelhante ao da Jorge Welsh, Vicoria and Albert Museum, Londrestipologia das gavetas e a pintura apresentam grande afinidade com o escritório lacado (a que falta o tampo de abater) do Museu Victoria and Albert em Londres (11).
O escritório da Jorge Welsh é como já mencionado um escritório pequeno de tampo de abater, circa 1570-1600, de uma tipologia correspondente à dos "escritórios do tipo dos da Alemanha" que se tornará modelo corrente tanto na produção indo-portuguesa como na namban, mas que à época da sua feitura no Guzarate seria uma "novidade". As pegas laterais de ferro são elementares e de um Espelho gravado da fechadura do escritório da Jorge Welsh estilo ainda por definir, reforçando o carácter pioneiro deste móvel. Os puxadores do tipo pingente são de um modelo quinhentista corrente no Reino. O espelho da fechadura de latão, invulgarmente grande e com um desenho floral estilizado gravado, levanta mais dúvidas. É bastante próximo do trabalho gravado em pequenos cofres de aço alemães que também circulavam na Europa de então e, por outro lado, aproxima-se das ferragens do mobiliário namban.
Outras peças deste tipo destinadas ao mercado europeu são na sua maioria pequenos cofres de tampa trifacetada, de modelo europeu quinhentista, que também foram executados em outros materiaisCofre de tampa trifacetada com cenas de caça como placas de madrepérola fixadas por pinos de latão ou prata e em tartaruga. Temos notícia de vários destes cofres provenientes de colecções antigas portuguesas, sendo o mais notável o exemplar com cenas de caça e um interior pintado com motivos diversos (vem reproduzido em Mobiliário Português de Bernardo Ferrão, vol. III, pp. 122-123). A importância deste cofre não passou desapercebida ao autor, embora não conseguisse na época uma atribuição específica, o que não é de surpreender tomando em consideração a escassez de referências e exemplares inventariados na época em que elaborou este estudo que ainda constitui uma referência importante para o estudo do mobiliário luso-oriental.

 

(1) Digby - The Mother of Pearl Overlaid Furniture of Gujarat, the holdings of the Victoria and Albert Museum. In Facets of Indian Art, Victoria and Albert Museum, London, 1986, p..214.
(2) Babur-Nama - Trad. A. S. Beveridge, Munshiram Manoharlal Publishers Pvt. Ltd., New Delhi, p. 142.
(3) Digby - Ibid, pp..213-214.
(4) Etnographic Objects in the Royal Danish Kunstkammer, Nationalmuseet, Kobenhavn, 1980, p. 123.
(5) Oriente en Palácio - Tesoros Asiaticos en las Colecciones Reales Españolas, Palácio Real Madrid, 2003, p. 131.
(6) Digby - Ibid, pp. 215-216.
(7) Gaspar Correia - Lendas da Índia, Lisboa, 1858, Vol. I, p..287, citado em "Uma família de Objectos Preciosos do Gujarate", José Jordão Felgueiras.
(8) Fazl, Abul - The A-in-i-Akbari, Jarret translation, Low Price Publications Delhi,1997.
(9) Linschoten, Jan Huygen van - Itinerário, Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses, 1997, p. 93.
(10) Pyrard de Laval, François - Voyages aux Indes Orientales (1601-1611), Chandeigne,1998, p.750.
(11) Luxury Goods From India, Amin Jaffer, Victoria and Albert Museum


 
 
 
 

 

por: Manuel Castilho

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