
De tempos a tempos aparecem no mercado de antiguidades peças tais como este escritório que independentemente do seu valor comercial e raridade óbvios ajudam a deslindar algumas das dúvidas acumuladas e que são uma bênção para os estudiosos e interessados em determinada área da produção das artes decorativas. Reconstruir e explicar o passado são por vezes tarefas ingratas por falta de elementos de estudo. A produção de mobiliário com madrepérola do Guzarate é um desses sectores onde as lacunas e as dificuldades são múltiplas.
eum. O único outro estudo a mencionar é “Uma família de Objectos Preciosos do Guzarate” de José Jordão Felgueiras publicado no catálogo da exposição a Herança de Rauluchantim (Museu de S. Roque,1996) que através de inventários portugueses da época consegue provar que um sem número de preciosidades de madrepérola mencionadas por viajantes contemporâneos como Linschoten e Pyrard de Laval chegaram de facto a Portugal na época e integraram colecções e tesouros reais e da nobreza portuguesa. O facto de em colecções antigas portuguesas existirem, deste grupo de objectos, quase só cofres deve-se possivelmente ao desgoverno e às atribulações da sociedade civil, tendo sido a Igreja e as ordens religiosas que se revelaram os mais fieis depositários destes tesouros e que por motivos relacionados com o culto detinham sobretudo cofres usados como hostiários e relicários. 
Há a considerar dois tipos distintos de trabalho em madrepérola das oficinas do Guzarate: objectos só em madrepérola, por vezes com estrutura de madeira ou com elementos de latão para maior rigidez, mas sempre revestidos totalmente de pequenas placas de madrepérola, quase sempre fixadas por pinos de latão ou de prata.
O outro grupo ao qual pertence este escritório é o de objectos e móveis com estrutura de madeira decorados com desenhos formados por pequenas placas de madrepérola embutidas em laca a que alguns autores chamam laca do Guzarate ou massa preta.
Parece que estas duas modalidades de trabalho de madrepérola foram praticadas em simultâneo nas mesmas oficinas como sugere o estudo de vários objectos que chegaram até nós e que apresentam os dois tipos de trabalho. São exemplos que parecem confirmar esta presunção o tabuleiro de xadrez e gamão do Bayerish Nationa
Museum (Catálogo da exposição Exótica nº 21) e a pequena caixa para canetas do David Collection (Art from the World of Islam nº 442), ambos conjugando trabalho de embutidos em laca com áreas revestidas a placas de madrepérola fixadas com pinos de latão.
Não há informação fundamentada sobre a origem desta indústria de embutidos em madrepérola na Índia. Há notícia de obras de embutidos de madrepérola a partir do séc. XV. Digby menciona um cenotáfio (monumento funerário) em Ahmedabad, no Guzarate, datável a 1460 que foi embutido com madrepérola, a referência mais recuada a este tipo de trabalho na Índia (1). Babur o primeiro Imperador Mogol (avô de Akbar) conta nas suas memórias, o Babur–nama, em passagem referente a Setembro de 1529, quando em campanha no Norte da Índia, ter enviado vários presentes para o seu filho Hindal em Kabul, nomeadamente um tinteiro embutido e um banco trabalhado em madrepérola (2).
Sendo a arte de embutir madrepérola uma tradição oriental, parece provável que os artífices indianos se tenham
originalmente inspirado num protótipo possivelmente chinês ou coreano. Na China o trabalho em laca remonta pelo menos à Dinastia Shang (1766-
A qualidade e natureza do trabalho de embutidos de madrepérola do Guzarate varia grandemente. Será provável que tenham existido várias oficinas a produzir estas
peças com graus diferentes de perícia. A qualidade, as tipologias e os desenhos parecem também ter evoluído durante os cerca de século e meio ou dois séculos em que estas obras foram produzidas, provavelmente num processo de adaptação à procura nos diversos mercados de exportação.
o baldequino de Delhi, datável a 1609 (3).
Pelo contexto histórico é de supor que as exportações para o mundo islâmico, com destaque para o Império Otomano, sejam anteriores ao comércio orientado para os países europeus. Convém entretanto notar que alguns objectos, sobretudo cofres com óbvia tipologia e desenho islâmicos, ingressaram em colecções reais europeias no séc. XVI e seguinte, exactamente pelo seu valor exótico e beleza e como testemunhos da diversidade e num espírito de fascínio pelas novidades de um mundo que estava então a ser “descoberto”. Tal é o caso do cofre das Descalzas Reales de Madrid (inv. Nº 00612591), possivelmente um dos cofres de madrepérola enumerados no inventário de Joana de Áustria de 1553 (5).Da mesma tipologia e também de grande qualidade de execução é o cofre guardado no Victor
ia and Albert Museum, Londres.
Guzarate, mostrando um vocabulário decorativo que incorpora árvores estilizadas com copa em forma de coração invertido, palmeiras com rosáceas, etc., atribuível aos Sultanatos do Norte da Índia do período pré-Mogol. A face superior do cofre do Victoria and Albert , no entanto, assim como outros cofres, apresenta um trabalho do tipo que Digby classifica de post-Timurid internacional (6) com os seus arabescos e movimento de sugestão caligráfica de grande elegância e precisão.
versos persas e árabes em embutido, assim como o nome do seu autor Shaikh Muhammad Munshi Ghaznavi e a data 1587, apresenta caligrafia e um desenho islâmico de elevado nível de execução.
No seu Itinerário publicado em 1596, o viajante holandês Linschoten menciona que em Sind, junto da embocadura do rio Indo, “fazem todo o género de escrivaninhas, armários, malinhas, caixinhas, bastões e mil outras bugigangas e curiosidades semelhantes, todas embutidas e lavradas com madrepérola, sendo tudo levado para Goa e para Cochim, na altura em que os navios portugueses ali estão para carregar (9). O francês François Pyrard de Laval, observador atento do que viu na Índia entre 1601 e 1611, deixa-nos um dos testemunhos contemporâneos mais esclarecedores sobre a produção de mobiliário para exportação na Índia do início do séc. XVII. Descrevendo o reino de Cambaia (Guzarate), entre outras informações, conta: ”Ils ont encore des cabinets à la façon d’Allemagne, à pièces raportées de nacre de perle, ivoire, or, argent, pierreries, le tout fait proprement.” (10). Referia-se aos pequenos escritórios de tampo de abater com uma gaveta central maior rodeada de pequenas gavetas decorados com embutidos de madeiras diversas, produzidos pelas oficinas de Ausburgo e Nuremberga a partir de meados do séc. XVI e durante o XVII, muito populares em toda a Europa.
relevância como exemplo recuado ilustrando a transição de modelos islâmicos na aurora formativa de um mercado de exportação de mobiliário exótico da Índia para a Europa, que iria manter o seu fulgor até, pelo menos, ao séc. XVIII. A tipologia deste móvel corresponde plenamente aos modelos em voga na Europa de então. Que tenhamos notícia e apesar das diversas menções contemporâneas a escritórios de madrepérola, apenas encontramos um outro escritório de embutidos de madrepérola em laca do Guzarate publicado por Digby, este com uma decoração já muito mais próxima dos numerosos escritórios afins em que o marfim substitui a madrepérola, mais um passo na aproximação ao gosto e técnica europeus.
invertido e a palmeira estilizada com rosáceas que são motivos centrais num cofre de tipo islâmico como o das Descalzas Reales em Madrid Digby menciona a existência de mais dois escritórios neste tipo de trabalho cuja descrição corresponde ao modelo do presente (poderá este ser um dos ditos escritórios que o autor teve ocasião de inspeccionar anos atrás?). Todo o interior do móvel está decorado com um trabalho pintado a vermelho de tipo vegetalista que encontramos em muitas peças do Guzarate atribuídas aos sécs. XVI e XVII. A
tipologia das gavetas e a pintura apresentam grande afinidade com o escritório lacado (a que falta o tampo de abater) do Museu Victoria and Albert em Londres (11).
estilo ainda por definir, reforçando o carácter pioneiro deste móvel. Os puxadores do tipo pingente são de um modelo quinhentista corrente no Reino. O espelho da fechadura de latão, invulgarmente grande e com um desenho floral estilizado gravado, levanta mais dúvidas. É bastante próximo do trabalho gravado em pequenos cofres de aço alemães que também circulavam na Europa de então e, por outro lado, aproxima-se das ferragens do mobiliário namban.
como placas de madrepérola fixadas por pinos de latão ou prata e em tartaruga. Temos notícia de vários destes cofres provenientes de colecções antigas portuguesas, sendo o mais notável o exemplar com cenas de caça e um interior pintado com motivos diversos (vem reproduzido em Mobiliário Português de Bernardo Ferrão, vol. III, pp. 122-123). A importância deste cofre não passou desapercebida ao autor, embora não conseguisse na época uma atribuição específica, o que não é de surpreender tomando em consideração a escassez de referências e exemplares inventariados na época em que elaborou este estudo que ainda constitui uma referência importante para o estudo do mobiliário luso-oriental.
(1) Digby - The Mother of Pearl Overlaid Furniture of Gujarat, the holdings of the Victoria and Albert Museum. In Facets of Indian Art, Victoria and Albert Museum, London, 1986, p..214.
(2) Babur-Nama - Trad. A. S. Beveridge, Munshiram Manoharlal Publishers Pvt. Ltd., New Delhi, p. 142.
(3) Digby - Ibid, pp..213-214.
(4) Etnographic Objects in the Royal Danish Kunstkammer, Nationalmuseet, Kobenhavn, 1980, p. 123.
(5) Oriente en Palácio - Tesoros Asiaticos en las Colecciones Reales Españolas, Palácio Real Madrid, 2003, p. 131.
(6) Digby - Ibid, pp. 215-216.
(7) Gaspar Correia - Lendas da Índia, Lisboa, 1858, Vol. I, p..287, citado em "Uma família de Objectos Preciosos do Gujarate", José Jordão Felgueiras.
(8) Fazl, Abul - The A-in-i-Akbari, Jarret translation, Low Price Publications Delhi,1997.
(9) Linschoten, Jan Huygen van - Itinerário, Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses, 1997, p. 93.
(10) Pyrard de Laval, François - Voyages aux Indes Orientales (1601-1611), Chandeigne,1998, p.750.
(11) Luxury Goods From India, Amin Jaffer, Victoria and Albert Museum

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