
Qual o destino dado aos postais ilustrados que noutros tempos faziam parte do ritual do viajante e que actualmente se tornaram um objecto kitsch? Qual a actualidade do tema no domínio da criação contemporânea?
Objectos da cultura popular, os postais ilustrados tiveram diferentes funções na modernidade, servindo para registar memórias e experiências pessoais. Constituíram uma forma massificada e popular de comunicação e não apenas um suporte de transmissão de mensagens. Os postais foram meios privilegiados para divulgar locais e paisagens, constituindo um veículo contemporâneo da era da reprodutibilidade técnica, sendo também um dispositivo para a difusão de obras de arte.
A par do interesse académico crescente por estes objectos, que durante muito tempo foram desconsiderados como documentos históricos marginais, actualmente constata-se a atenção especial que, contemporâneos ou de períodos precedentes, despertam entre coleccionadores e artistas. Assim, não obstante terem caído em desuso e estarem praticamente reservados aos antiquários, vamos descobrindo a sua existência em arquivos, colecções de artistas e mesmo como base de desenvolvimento de projectos artísticos contemporâneos.
Num recente catálogo editado pela Steidl, por ocasião da exposição "Walker Evans and the picture postcards" no Metropolitan Museum of Art (3 de Fevereiro a 25 de Maio de 2009), descobrimos o interesse de Walker Evans (1903-1975) por postais ilustrados. Da exposição faziam parte 9 000 postais inseridos nesta categoria, reunidos pelo artista ao longo de 60 anos (começou a coleccionar por volta dos 12 anos), e que hoje fazem parte do acervo do Walker Evans Archive (o qual também integra 30 000 negativos a preto e branco e 10 000 transparências em cor), adquirido pelo Met em 1994. Datados das duas primeiras décadas do séc. XX, receberam do artista uma atenção metódica que o levou a organizá-los sob diferentes rubricas como automóveis, arquitectura americana, cidades e interiores, e a partilhar na década de 40 esse gosto com o público, escrevendo três artigos sobre postais. Esses artigos, o primeiro deles publicado em Maio de 1948 na revista Fortune, de que Walker Evans era editor, com o título "Main Street Looking North From Courthouse Square", estão reproduzidos no catálogo e, estabelecendo a relação da fotografia com os postais da colecção, revelam-se paradigmáticos da forma como estes constituíram uma influência para a fotografia que desenvolveu, tal como para o desenvolvimento do carácter realista da sua prática artística.
Fotógrafo como Walker Evans, Martin Parr revelou-se igualmente um coleccionador de postais, tendo usado a sua colecção privada para a edição de várias publicações. E destaca-se a trilogia ironicamente intitulada Boring Postcards, composta por Boring Postcards (1999), Boring Postcards USA (2000) e Langweilige Postkarten (2001), editada pela Phaidon, onde figura a sua colecção de postais das décadas 1950-1970, que apresenta em edições dedicadas ao Reino Unido, aos Estados Unidos e à Alemanha. Ao contrário da colecção de Walker Evans, esta obra ímpar que lança outra luz sobre a arte de Parr não se apresenta segundo qualquer organização arquivística, não surge catalogada nem é acompanhada por quaisquer textos, datas ou circunstâncias contextuais. Vislumbra-se por vezes uma organização por temas que são nele recorrentes, ou aos quais presta outro desenvolvimento na sua obra - auto-estradas, aeroportos, indústria turística, restauração, arquitectura - e não existe nenhuma indicação que permita descortinar se estes postais da colecção privada de Martin Parr foram recebidos ou adquiridos.
Existem outros exemplos de artistas que, não sendo coleccionadores de postais ilustrados, tecem uma aproximação à imagética destes. É o caso da dupla suíça Peter Fischli e David Weiss que, sem preocupações técnicas, foi constituindo um grande conjunto de imagens realizadas durante os passeios e viagens que efectuaram pelo seu país e pelo mundo fora. Um dos seus trabalhos mais conhecidos, Visible World, é composto por fotografias de flores e paisagens naturais com efeitos "turísticos" de cor e luz, que se aproximam da abordagem visual de tantas imagens postais assentes na natureza exótica e paradisíaca que se realçava (ou inventava) para inúmeros lugares.
A obra da artista polaca Aleksandra Mir, VENEZIA (all places contain all others), presente na exposição "Making Worlds", comissariada por Daniel Birnbaum no âmbito da Bienal de Veneza, pode constituir um bom exemplo de projectos neste domínio. Consiste na distribuição gratuita de um milhão de postais, produzidos a partir da reprodução de 10 000 exemplares de 100 postais originais que, apesar de terem inscrita a palavra "Venezia", viram substituídas as tradicionais imagens da cidade por outras de diferentes destinos e monumentos turísticos, caracterizadas pela presença da água (praias de Miami, rios nórdicos, lagos da floresta alemã, fontes de Paris, etc). Desta forma, ao apropriar-se e redefinir o sentido e as estratégias da indústria turística, o procedimento distancia a cidade das suas imagens estereotipadas. Do projecto fazia ainda parte um local de expedição dos correios italianos e a venda de selos na área da mostra, que permitia a sua difusão para diversas partes do mundo. Metáfora da globalização e de como a informação e a desinformação podem circular rapidamente, a artista espera que daqui a 100 anos um destes postais termine o seu percurso num dos antiquários do rio Sena.

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