
Esteve ligado ao grupo de Mário Cesariny, mas não se considera "oficialmente" surrealista, uma vez que sempre gostou de cultivar múltiplos interesses. A propósito da sua nova e surpreendente exposição, Carlos Calvet recebeu a Artes & Leilões na casa onde vive e trabalha, perto das Amoreiras, em Lisboa, e fez o balanço de um percurso que, além da pintura, também passou pela fotografia, pelo cinema e pela arquitectura.
A & L - Na exposição "Pinturas Recentes" - que ainda decorre na Galeria Valbom, em Lisboa - percebe-se uma continuidade do seu trabalho anterior, mas também, se assim se pode dizer, uma intensificação da componente geométrica em detrimento da mais figurativa. Quer explicar porquê?
Carlos Calvet - Eu já tinha feito, há uns 30 anos, estudos sobre as formas puras - as que não são descritivas da realidade exterior -, mas esses estudos ficaram quase ignorados, só mostrei uns quantos numa exposição na Arcano XXI [em Lisboa], em 1984. E alguns dos meus quadros anteriores também apontavam para essas formas básicas, como são definidas pelos platónicos e pitagóricos: o triângulo, o quadrado e o círculo - o três, o quatro e o infinito. Isto para dizer que essa zona da pintura também me interessa e que tenho quadros essencialistas feitos em várias épocas. Outra zona que também me interessou muito foi a de um abstraccionismo lírico, mais maleável e variado nas formas, em que entrava a pincelada, a curva, o pormenor insólito, a alteração das perspectivas, o jogo das formas entre si...
A & L - Ou seja, já havia várias experiências que sustentaram as de agora.
Carlos Calvet - Já. Por exemplo, no princípio [década de 40] tinha ensaiado umas construções à maneira cubista, em que também existia o prazer e o jogo da forma. Depois veio a zona do surrealismo e aí já temos a imagem como encenação do imaginário. E mais adiante [nos anos 70] tive alguns trabalhos puramente geométricos.
A & L - Mas qual é a diferença dos trabalhos actuais em relação aos anteriores? Porque há diferenças...
Carlos Calvet - Sim, há. Esses trabalhos anteriores eram mais grafistas e o que está a interessar-me agora são as formas que ocupam um grande campo. Enquanto as anteriores eram desenhísticas, reduzidas a traços, as actuais são mais fortes e poderosas na ocupação do espaço, mais expressivas. Reflectem uma preocupação de simplificação, de tirar partido das grandes formas para obter uma sensação de ocupação dramática do espaço. Mas não há nenhuma ruptura absoluta, porque uma forma pura pode ser transposta para uma forma figurativa. O que é um quadrado num quadro pode ser um edifício no outro, uma linha pura pode tornar-se um horizonte marítimo. Deixa de existir antagonismo entre a representação realística ou fantasiada do exterior e a representação das formas em si, o que implica que não haja uma ruptura epistemológica entre o figurativo e o abstracto.
A & L - Nasceu em 1928 e, pelo que vi, os seus quadros mais antigos que vi datam de 1944, quando tinha 16 anos. Foram as suas primeiras pinturas?
Carlos Calvet - Foram as primeiras já com uma intencionalidade pictural, porque até aí só fazia bonecos. E escrevia contos. Aos 14 anos, até fiz uma reportagem de guerra, ilustrada, uma edição de luxo [risos]. Ainda a tenho.
A & L - Em que se baseou para fazer essa reportagem?
Carlos Calvet - Havia notícias nos jornais, a própria propaganda dos beligerantes, contavam-se coisas...
Escrevi como se fosse um repórter de guerra na Rússia, na altura do avanço alemão. Tinha sido apanhado pelos alemães e estava numa prisão - era a favor dos aliados, claro, como toda a minha família. Depois, a prisão acabava por ser destruída por um bombardeamento e eu conseguia safar-me e fugir para a Turquia.
A & L - Já fazia filmes...
Carlos Calvet - Fazia mesmo - uns filmezinhos pequenos, de tiras de papel coladas umas às outras, cada uma com o seu fotograma a cores, desenhado à mão. Depois havia uma bobina que debitava e outra que recolhia a "película". Rodava-se e era o próprio filme de papel que passava, fotograma a fotograma - para as pessoas terem tempo de ler -, num teatrinho feito com peças de Mini Meccano, que tinha uma abertura rectangular a fazer de ecrã. Era uma espécie de lanterna mágica, mas sem projecção. Tudo isso me interessava já muito nessa altura.
A & L - Portanto, já sentia fascínio pelo cinema e seus mecanismos na adolescência.
Carlos Calvet - Sim, isto foi mais ou menos em 1942, tinha eu uns 14 anos. Por essa altura comecei a interessar-me muito por estas coisas, que, aliás já me interessavam antes, por causa do Júlio Verne, por exemplo. Havia uma grande biblioteca de Júlio Verne em minha casa. Enorme. E eu li-a toda. A minha cabeça estava cheia de ficção científica, de coisas maravilhosas, de aventuras mirabolantes, até no espaço. Nessa altura apaixonou-me a astronomia, mais tarde até cheguei a fazer um sistema solar em miniatura nas paredes do quarto. Ainda hoje é uma das minhas paixões.
A & L - Como era essa vida familiar que lhe permitia o acesso a tantas coisas? Tinha irmãos, por exemplo?
Carlos Calvet - Tinha. Nós morámos em várias casas. Numa aqui em Lisboa, no Bairro Alto - que ainda tenho -, éramos três irmãos e um meio-irmão, mais velho, do primeiro casamento da minha mãe. O meu irmão mais novo ainda era muito miúdo e não tínhamos assim grande ligação cultural, mas dava-me muito com o mais velho, que tinha mais quatro anos do que eu. Era um irmão inteligentíssimo, mas doente: passava muito tempo na cama, tinha qualquer coisa reumática, de que acabou por morrer aos 13 anos, em 1937. Fazíamos uma pandilha de dois. Mesmo na cama, ele desenhava numa prancheta e fazia um jornal infantil ilustrado, com aventuras - ainda tenho um exemplar. Isso estimulou-me e também comecei a fazer um jornal. Mais tarde, o meu irmão mais novo - o Nuno Calvet, que tem menos quatro anos do que eu e é fotógrafo profissional - também começou a fazer desenhinhos. Na família toda a gente fazia desenhos e jornais.
A & L - Havia alguma razão em especial para isso? Por exemplo, o que faziam os seus pais?
Carlos Calvet - Sim, eles ajudavam na sua medida. O meu pai era médico militar e a minha mãe era dona de casa, como se usava na altura, mas escrevia os seus poemas.
A & L - Eram pessoas de cultura.
Carlos Calvet - Eram. A minha mãe tinha uma grande paixão pela poesia e escrevia uns poemas bem feitos, com muito sentido. E o resto da família também era assim, tanto do lado paterno como do materno. Havia um caldo de cultura e isso é muito importante.
A & L - Foi nesse caldo de cultura que começou a enriquecer o seu imaginário e isso, progressivamente, levou-o aos primeiros desenhos e pinturas.
Carlos Calvet - E escritos também, contos. Interessava-me pela ficção científica, pelo maravilhoso, por viagens extraordinárias. Além de Júlio Verne, houve outros livros que vieram depois: Mark Twain, O Monte dos Vendavais, por aí fora... Havia sempre este estímulo, que me levou, anos mais tarde, a interessar-me pelo esoterismo e pela geometria sagrada. Nos anos 80, comecei a fazer estudos de geometria sagrada por influência de uma recolha, feita pelo Lima de Freitas, da obra do Almada Negreiros - de quem já tinha visto exposições. Esse livro [Almada e o Número] foi muito importante porque, daí em diante, fiquei completamente apanhado por aquilo. Como o Paulo Guilherme [d'Eça Leal] também ficou. Durante 20 anos, trabalhei nesses estudos como actividade paralela - era na arquitectura que tinha o meu ganha-pão, mas também pintava e estudava geometria sagrada. E fazia fotografia. Várias coisas...
A & L - Muitas coisas... De resto, há diversas singularidades no seu trajecto. Como esta: nasceu em Lisboa, mas acabou por ir estudar Arquitectura para o Porto. Como é que isso aconteceu?
Carlos Calvet - Aí foi mais problema de escola. Estive quatro anos nas Belas-Artes de Lisboa e não me dava bem lá. Havia uma mentalidade mais atrasada e tive dificuldades com certos professores. Não fui caso único, houve alguns que não estavam bem e mudaram de escola. Uma vez, um colega disse-me: "Vou para o Porto, queres vir comigo? Eles têm o Carlos Ramos, são gente moderna e estão mais evoluídos em Arquitectura do que nós aqui". Claro que a ideia de ir para uma escola mais evoluída me atraiu imenso.
A & L - Em que ano foi para o Porto?
Carlos Calvet - No fim de 1949, parece-me.
A & L - Portanto, já depois da primeira exposição d'Os Surrealistas, que aconteceu de 18 de Junho a 2 de Julho desse ano, no antigo salão da Pathé-Baby [no número 58 da Rua Augusto Rosa], em Lisboa.
Carlos Calvet - Não tenho as datas bem definidas, mas por essa altura andava de facto muito interessado no surrealismo. O Mário-Henrique Leiria, com quem já me dava há uns anos, é que me atraiu: "É pá, é uma coisa bestial, os tipos são formidáveis". Arranjei uns livros emprestados, depois conheci o Cesariny, o Seixas, o António Maria Lisboa, eles emprestaram-me mais livros e revistas e, é claro, fiquei apanhado por aquilo.
A & L - Era um pouco mais novo do que o resto do grupo.
Carlos Calvet - Era. E eles andavam naquilo já há algum tempo. Primeiro, andaram no neo-realismo, que era a fruta da época e estava espalhado por toda a parte Ocidental da Europa.
A & L - Quase todo o grupo surrealista frequentou a escola António Arroio, mas o Carlos Calvet não.
Carlos Calvet - Eu passei do liceu para as Belas-Artes. Nessa altura não conhecia nenhum deles, a não ser o Mário-Henrique Leiria, que morava ao pé de mim - ele em Carcavelos, eu em Oeiras. E vi a exposição surrealista [a primeira e única do Grupo Surrealista de Lisboa, de 19 a 31 de Janeiro de 1949], que teve um grande impacto e em que participaram o [José-Augusto] França, o António Pedro, o [Marcelino] Vespeira, por aí fora.... Eu andava na Escola de Belas-Artes e a exposição era no Chiado [no último andar do n.º 25 da Travessa da Trindade], de maneira que era fácil visitá-la. Estava muito bem armada, tinha um ambiente fantasmagórico, era uma boa exposição. Depois disso é que soube que o Cesariny e o António Maria Lisboa tinham saído desse grupo do França e do António Pedro, porque os achavam muito académicos.
A & L - O tempo parece ter-lhes dado alguma razão.
Carlos Calvet - Não era bem o que eles queriam, o Cesariny e os outros. Nessa altura, o Mário-Henrique, que era todo pelas revoluções e mutações, um entusiasta por coisas estranhas ou que saíssem dos trâmites habituais, levou-me a conhecer o Cesariny e o Lisboa. Eram tipos interessantíssimos. O Cesariny já tinha obra feita e, para mim, era mesmo o maior poeta deles todos. O Lisboa era um tipo inteligentíssimo, entusiasta e com um trato estupendo. E veja que estas pessoas viviam no limiar da pobreza - o Lisboa acabou por morrer tuberculoso. Foi a Paris falar com o Breton, mas com uma dificuldade imensa, quase sem dinheiro, mesmo para comer.
A & L - Nesse aspecto, o Carlos Calvet vivia numa zona de conforto diferente.
Carlos Calvet - Estava muito mais confortável. Quer dizer, o dinheiro era pouco, mas ... O meu pai não tinha um cargo muito bem pago - fazia medicina no âmbito da tropa, era o ordenado de militar. Portanto, lá em casa havia uma certa preocupação de economia. Mas apesar de tudo tínhamos o fundamental e havia um ambiente propício para nos cultivarmos, muitos livros...
A & L - Seguir arquitectura foi uma escolha pragmática ou era mesmo o que queria fazer na altura?
Carlos Calvet - Estava altamente interessado por arquitectura e comecei a fazer amigos que tinham mais possibilidades de viajar, que traziam livros e revistas de arquitectura - de Le Corbusier, por exemplo - e mos emprestavam. Sempre tive essa tendência: interessei-me por tudo o que me desse mais conhecimentos sobre o mundo e as pessoas, por filosofia...
A & L - Assim sendo, não perdeu o interesse por pintar depois de seguir Arquitectura. Até começou a expor em 1947, com uma colectiva nas Belas-Artes.
Carlos Calvet - Sim, foi a minha primeira exposição, não contando com uma colectiva informal em que participei em 1946, organizada pelo João Abel Manta numa casota que eles tinham ali no Bairro Alto. O Manta - pai - tinha o seu grande prédio com o seu grande atelier e, num jardinzinho ao lado, havia uma casota onde nós [Carlos Calvet, Lima de Freitas, João Abel Manta, Jorge Vieira, Sena da Silva, Lagoa Henriques, Castro Rodrigues e José Dias Coelho, que viria a ser assassinado pela PIDE em 1961] fizemos a nossa primeira exposição aberta ao público. Só que as pessoas não sabiam que estava ali aquilo. Iam aparecendo uns amigos e pessoas conhecidas. E apareceu o "Cunha Bruto" [alcunha por que ficou conhecido o arquitecto e professor Luis Alexandre da Cunha (1893-1971)]. Quando se entrava no curso de Arquitectura, só se estudavam as ordens clássicas, greco-romanas, eram dois anos disso, e o Cunha Bruto era uma espécie de ogre, um tipo que metia medo e tal... Era bruto, chamavam-lhe Bruto. Mas não era mau tipo, era a natureza dele, e ainda se aprendia alguma coisa com ele. Ora, lembro-me que o Cunha Bruto foi ver essa nossa exposição. Nós ficámos espantados, porque desconfiávamos que ele tinha ligações com a PIDE. Se calhar, foi inspeccionar, para ver que subversões ali haveria, porque já tínhamos fama de subversivos.
A & L - E proveito, tinham?
Carlos Calvet - Não [risos]. Quer dizer... Mais tarde, quando houve as eleições [presidenciais, em 1949], fomos aos comícios [do general Norton de Matos], andámos a distribuir panfletos pela cidade, mas foi o máximo que fizemos.
A & L - Voltando a Cunha Bruto...
Carlos Calvet - Muito atento, viu tudo com muito cuidado, não fez perguntas, até que descobriu que tínhamos um garrafão de vinho - tínhamos uma mesinha central e, por baixo da mesa, estava um garrafão de vinho e uns copos, para a malta de vez em quando matar a sede. Ele gostou muito e matou a sede [risos]. Confraternizou, teve piada, foi um aspecto simpático que guardei dele. De qualquer forma, não ponho essa exposição no currículo, porque foi uma coisa marginal, esporádica, embora tenha sido a minha primeira colectiva.
A & L - Nessa altura não lhe passava pela cabeça ser só artista?
Carlos Calvet - Era uma paixão paralela que exercia em casa. Muitas das coisas que fazia eram distribuídas pelos amigos. Lembro-me que o Mário-Henrique Leiria me visitava, via uma coisa que gostava e dizia: "Tens de me dar isto". E eu dava. Todos dávamos coisas, porque aquilo não tinha valor comercial nenhum. A esperança de vender esses trabalhos era quase nula. Numa exposição colectiva em que entrei, e em que entrou também o Leiria, vendeu-se meia dúzia de coisas. Mas aconteceu um milagre: ele vendeu um quadro - um sujeito comprou-lho por 600 escudos ou coisa assim. Na altura era muito dinheiro e o Leiria andava encantado com aquilo. A primeira coisa que fez foi ir a um cabeleireiro da moda, de ricos, daqueles que tinham manicure e tudo. Foi tratado como um príncipe [risos]. Entrou como um grande senhor, um cliente habituado àquelas coisas. Lá esteve, fizeram-lhe um corte de cabelo, arranjaram-lhe as unhas, tudo muito perfeito, num ambiente de luxo, ali na Baixa. Foi a grande experiência dele no luxo, com o dinheirinho que tinha ganho na venda do quadro. E aquilo foi comentado: "Agora estás armado em capitalista" e tal [risos]...
A & L - A sua contribuição, extra-catálogo, para a primeira exposição d'Os Surrealistas chamava-se Bicho que Dá nas Praias. Como era essa peça?
Carlos Calvet - O Bicho que Dá nas Praias teve uma história quase premonitória. O Mário-Henrique Leiria veio ter comigo, disse que iam fazer uma exposição e desafiou-me a participar. Respondi-lhe que não tinha nada e ele disse-me para fazer alguma coisa. Mesmo no fim, já estava a exposição toda montada e o catálogo feito, apareci com uma obra feita em óleo sobre papel, que lá esteve exposta. O Cesariny gostou tanto que me pediu o quadrinho. E eu dei-lho, pronto: "Toma, leva". Nessa altura não tinha máquina fotográfica - só dez anos mais tarde é que comprei uma - e, portanto, não tenho fotografia do quadro... Era um papel todo mole, emoldurado numas varetas muito primárias. O Cesariny tinha-o no quarto, cheguei a vê-lo lá pendurado na parede, mas depois veio aquele período terrível em que ele era perseguido pela PIDE
A & L - Obrigado a apresentações, por suspeita de vagabundagem.
Carlos Calvet - Foi para Inglaterra, esteve lá uns anos e, quando regressou, instalou-se no seu velho quarto. Pouco depois, perguntei-lhe: "É verdade, e aquele quadrinho que te dei, O Bicho que dá nas Praias?". "Olha, encontrei-o todo caído". Tinha-se deteriorado a tal ponto - não sei se com a humidade - que foi caindo aos pedaços.
A & L - Desmaterializou-se...
Carlos Calvet - O bicho deu mesmo nas praias [risos]. Desintegrou-se completamente. Foi talvez uma analogia com a bomba atómica, que também se desintegra [risos]. Era a tendência dele.
A & L - Pouco depois dessa primeira exposição d'Os Surrealistas, mudou-se para o Porto. Foi por isso que já não participou na segunda, na Livraria Bibliófila [de 1 a 10 Junho de 1950]?
Carlos Calvet - Sim, nessa altura já estava no Porto. Fui no início do ano lectivo [de 1949/50], em Setembro, creio. Fui com o Duarte Castelo Branco e até alugámos quarto os dois, porque saía mais barato. A escola tinha uns pavilhões novos, mas no meio de um jardim lindo, como são os jardins do Porto. O ambiente era muito agradável e lá estive mais quatro anos. Depois voltei a Lisboa.
A & L - E o que fez?
Carlos Calvet - Por volta de 1956, arranjei emprego como arquitecto estagiário no [Porfírio] Pardal Monteiro [1897-1957] e fiquei a trabalhar num atelier improvisado no terreno onde ia ser construído o Hotel Ritz. Era um grande barracão apenso ao canto do terreno, onde trabalhavam o Frederico Santana e o Jorge Chaves [arquitectos que colaboravam com Pardal Monteiro], porque era muito mais prático ter ali o atelier, em vez de andar com os papéis de um lado para o outro. Além de que essa solução nos possibilitava fazer a supervisão da obra, que era uma obra complexa - durou para aí uns cinco anos, até 1961. Entretanto casei e resolvi, já com 29 anos, fazer a tese que me faltava para acabar o curso. Fi-la enquanto estive empregado no Pardal Monteiro, mas não tinha de faltar ao emprego e ainda tinha tempos livres. Consegui uma licença pequena, de uns dois dias, para ir defender a tese ao Porto e fiquei formado pela escola de lá.
A & L - Durante todo esse tempo continuou a pintar regularmente?
Carlos Calvet - Sempre. Mesmo enquanto estive no Porto pintei. Levava material para isso.
A & L - Foi-se apercebendo da implosão do grupo surrealista?
Carlos Calvet - Sim, por essa altura já eles andavam desavindos. O Cruzeiro foi para África, morreu o António Maria Lisboa. Ficou o Cesariny, o Risques Pereira entretanto já estava a tirar o curso de Engenharia, que lhe daria mais possibilidades de viver... O Cesariny andava sempre com falta de dinheiro, já se sabe - mas a família ia ajudando, ele vivia com a mãe e a irmã. O Mário-Henrique também vivia com a família, eu nem sabia bem onde ele arranjava o dinheiro - se de vez em quando fazia uns desenhos que vendia, publicidade, talvez... Aquilo começou a dispersar-se, a desaparecer aos poucos. Não desaparecia propriamente, mas já não havia aquela actividade grupal.
A & L - O Carlos Calvet nunca se afastou do surrealismo.
Carlos Calvet - Não, nunca.
A & L - Considera-se surrealista?
Carlos Calvet - Oficialmente, não [risos]. É diferente enquanto grupo... Há sempre nos grupos uma dinâmica própria: a da convergência das opiniões, dos sentimentos, das emoções... Num grupo, todos acabam por ser mais ou menos iguais, há uma homogeneização dos comportamentos... Depois também é isso que leva as pessoas a reagir, a não quererem estar tão agrupadas, tão submetidas a disciplinas, a conceitos e preconceitos ... A mim não me interessava nada pertencer a um grupo. Tinha aquele, mas gostava de grupos livres, em que pudesse estar e manter relações com outros. Por afinidade, somente. E eu tinha afinidade com muita gente que não pertencia ao grupo surrealista: estudantes de Arquitectura e Pintura - os colegas de Belas-Artes, no fundo. Era também um meio próprio.
A & L - Se lhe perguntasse se faz pintura surrealista, a sua resposta seria diferente?
Carlos Calvet - Já não ponho as coisas nesses termos. O mundo que o surrealismo desvendou é muito vasto. Aliás o próprio Breton falou nisso, ao considerar que um "facteur Cheval" [Palácio Ideal construído ao longo de 33 anos pelo carteiro francês Ferdinand Cheval (1836-1924) e hoje um monumento de arquitectura naif], um [Hieronymus] Bosch [1450-1516], um [Matthias] Grünewald [cerca de 1470-1528] ou um [Pieter] Bruegel [1525-1569] eram também uma espécie de pré-surrealistas.
A & L - Como Rimbaud ou os pré-rafaelitas.
Carlos Calvet - Sim, já existia toda uma atmosfera em volta do imaginário, principalmente com o romantismo. Aliás, vejo o surrealismo como um romantismo luciferino.
A & L - Um romantismo dos infernos.
Carlos Calvet - Porque tem a sua parte negra, misteriosa. E o próprio esoterismo foi considerado pelo Breton um dos aspectos pré-surrealistas, assim como as artes primitivas, que tiveram uma influência enorme no cubismo...
A & L - Em Picasso, muito especialmente.
Carlos Calvet - E Picasso abrangeu todos esses campos sem nunca ser um surrealista de grupo. O [Giorgio] De Chirico [1897-1978], que era um entusiasta da parte metafísica, chegou a ser um dos surrealistas mais aceites, mas depois foi afastado.
A & L - Embora a pintura mantenha traços surrealistas ao longo do tempo, o mesmo não se pode dizer das suas fotografias, que nada têm que ver com surrealismo.
Carlos Calvet - Aí há mais interesse pelo ambiente social e pelas pessoas.
A & L - Pela foto-reportagem?
Carlos Calvet - Também. Por estar virada para o mundo exterior, enquanto a pintura é toda virada para o interior.
A & L - Outra razão para dizer que não é surrealista, pelo menos "oficialmente".
Carlos Calvet - Sim, porque me interessam muitas coisas que não entram no campo dos interesses criativos dos surrealistas. O mundo é mais vasto.
A & L - As suas primeiras fotografias datam de 1956?
Carlos Calvet - Não contando com uma pequena máquina que tive por volta dos dez, onze anos: uma Kodac Brownie. Era de criança mas funcionava bem, tirava umas fotografias boazinhas. Depois a máquina estragou-se e nunca mais tive nenhuma até 1956. Aí, com dinheiro no bolso, já ganho por mim...
A & L - ... No atelier de Pardal Monteiro.
Carlos Calvet - ...Exacto. Aí já podia comprar uma máquina. Os meus amigos falavam muito das Leica, que eram caras. Mas um dia vi na montra do Penaguião, na Rua da Misericórdia - uma Leica em segunda mão por três contos, que, naquela altura, era quase quanto ganhava num mês. Vi aquilo, fiquei fascinado e, como tinha umas reservas porque queria casar, perdi a cabeça. Fui para casa deitar contas à vida, a ver se podia dar aquele dinheiro ou não, e no dia seguinte lá fui comprar a Leica. A máquina - garantida pelo Penaguião, que me disse que estava óptima - já tinha oito anos, era um modelo de 1948, com uma objectiva Elmar 50 que o Penaguião dizia ‘Esta é a melhor do mundo'. Comprei aquilo e comecei, loucamente, a fotografar tudo o que me passava pela vista. É claro, era um modelo com muitas limitações, mas deu-me muito prazer fazer essas fotografias. Foi uma paixão dessa época. Aproveitava todos os momentos livres para isso.
A & L - Até quando trabalhou como arquitecto?
Carlos Calvet - A última coisa que fiz foi no princípio dos anos 80: a remodelação da Academia das Ciências de Lisboa, com construção de uma zona de grande arquivo de livros.
A & L - A seguir deixou a arquitectura para se dedicar em exclusivo à arte?
Carlos Calvet - Pois, começou a haver um problema: o peso enorme que as duas actividades tinham. A arquitectura é trabalhosa e exige responsabilidade, a pintura era-me cada vez mais necessária, uma paixão que era preciso aprofundar. E fazer, porque só fazendo é que se aprende. Isso criava um stress grande. Entretanto tinha aberto a galeria São Mamede, do Pereira Coutinho, que ao princípio só se interessava por antiguidades - tinha uma loja - mas depois, por via do Cruzeiro Seixas, que lá trabalhava, começou a comprar quadros a vários artistas. Também me comprou a mim e fez-me uma exposição - a minha primeira individual na São Mamede - em 1969. Vendeu-se quase tudo, correu tão bem...
A & L - ...que em 1970 fizeram outra.
Carlos Calvet - Correu tão bem que eu achei que já podia voar com as minhas asas naquilo [risos]. Havia um panorama, na altura - por todo o país, aliás - de avanço, de progresso. Então, a pouco e pouco, fui deixando a arquitectura - que também não era assim muita - e insisti na pintura, fui fazendo exposições.
A & L - Ainda não falámos de outra actividade sua: o cinema.
Carlos Calvet - O cinema é outra história, que começou em 1958. Tinha feito uns trabalhos plásticos, estava mais à vontade de massas e comprei material. Mas já tinha o bichinho desde 1944. Interessei-me muito por um clube de amadores, o Belcine Clube, na Parede, que fazia sessões com filmes antigos de que conseguia arranjar cópias - não sei se já havia cinemateca, mas havia pelo menos os distribuidores, que costumavam ter essas cópias. Mais tarde até colaborei numa revista que eles fizeram. Essa foi uma porta de entrada no cinema
A & L - Ainda fez algumas curtas-metragens.
Carlos Calvet - Bastantes. O Filme Experimental foi feito numa tarde só.
A & L - Mas talvez o mais conhecido seja o Momentos na Vida do Poeta, com Mário Cesariny, feito ao longo ao longo de quinze dias, em 1964.
Carlos Calvet - Aí já havia um guião e tal... Esse filme fez um bocado de carreira. O Miguel Gonçalves Mendes, que fez um documentário sobre o Cesariny [Autografia] interessou-se muito pelos Momentos na Vida do Poeta. Até passou o meu filme juntamente com o dele.
A & L - Voltando à pintura. Como é o seu método de trabalho?
Carlos Calvet - O trabalho não tem segredo nenhum. Ou melhor, o que tem não são bem segredos, são técnicas, maneiras de resolver os problemas, que são diferentes de um trabalho para outro.
A & L - Mantém uma relação rotineira com o atelier?
Carlos Calvet - Não é muito rotineira, mas quando há uma pressão pode acontecer passar lá dias seguidos.
A & L - O que entende por pressão?
Carlos Calvet - Se tenho o compromisso de fazer uma exposição, por exemplo, tenho de disciplinar-me. Mas há muitos momentos em que as coisas se processam mais mentalmente. Porque também se consegue pintar só em imaginação. E depois há sempre um trabalho contínuo que tenho - possivelmente outros terão também - que é ir fazendo apontamentos num bloco de algibeira. Mais tarde, esses apontamentos - que são gráficos, não são observações teóricas - servem-me para fazer quadros.
A & L - É um trabalho de depuração de ideias, mais do que de inspiração?
Carlos Calvet - A inspiração é uma coisa complexa. Há momentos favoráveis, em que vem uma ideia súbita, não se sabe de onde.
A & L - Existe qualquer coisa de esotérico na criação?
Carlos Calvet - Muito. Acho que a criação tem muito que ver não só com o subconsciente, mas também, e muito, com o inconsciente. Há uma combinação entre as impressões que vêm do mundo exterior e da arte que já existe com a nossa própria estrutura psíquica, um entrosamento entre dois mundos, o interior e exterior, o da cultura e do espectáculo da natureza.
A & L - Há quem diga que a inspiração é um mito, que o que existe é trabalho.
Carlos Calvet - Não é. E quem faz arte fala nisso. Os poetas também falam. O Manuel Alegre, por exemplo, diz que o primeiro verso vem dos deuses - uma maneira de dizer que surge de repente, que não é fabricado por ele. E isso tanto pode acontecer com um verso como com uma ideia ou uma imagem. Depois é que o escritor ou o pintor trabalha aquilo e lhe dá um seguimento. Há momentos propícios, a que os antigos chamavam inspiração, por causa da influência divina. Segundo eles, havia um mundo transcendente que fazia os seus aparecimentos na mente das pessoas de vez em quando - como que uma ligação entre o céu e a terra, uma espécie de iluminação momentânea. No fim de contas, essa é apenas uma interpretação de um fenómeno que existe, até mesmo na ciência. Muitos cientistas falam disso, da ideia repentina que tiveram.
A & L - O momento "eureka! de Arquimedes na banheira ou a maçã que caiu sobre Newton.
Carlos Calvet - Já Platão dizia que nós nos lembramos das descobertas, de coisas enterradas nas profundezas do psiquismo do mundo, da alma do mundo, dos arquétipos. Daí que, quando tivéssemos uma ideia, nos estivéssemos a lembrar de qualquer coisa enterrada no mistério do mundo, que tem que ver também com a génese, que continua a ser completamente desconhecida. Filosoficamente, não se pode considerar que a ciência seja um sustentáculo suficiente para o conhecimento do mundo. Há sempre o aspecto misterioso, que não se consegue resolver.
A & L - Como é que o resolve para si?
Carlos Calvet - A tentativa é permanente. Em parte, as ciências caminham nesse sentido.
A & L - A ciência é apenas uma via?
Carlos Calvet - A ciência, aliás, progride muitas vezes por paradoxos, negando e transformando o que estava feito. Esses paradoxos, muitas vezes, são iluminações.
A & L - E a arte?
Carlos Calvet - A arte tem essa faculdade: fala dessa coisa fundamental, mas por metáforas.
A & L - Torna-se mais abrangente.
Carlos Calvet - Torna-se linguagem. Mas é metafórica.
A & L - E chega a toda a gente...
Carlos Calvet - As artes são para toda a gente, mas no presente nem todos são para as artes. Há poucos interessados e os que há formam um grupo restrito, que vai ampliando a informação que recebeu das artes e, a pouco e pouco, passando essa informação a outras camadas, geralmente novas gerações. Às vezes, podem ser precisas uma ou duas gerações para que qualquer coisa se dissemine, ainda que isso a torne menos intensa no seu significado - o que se dissemina é um conhecimento de certo modo mais superficial. Mesmo assim, essa passagem de informação vai criando públicos maiores, que depois actuam de várias maneiras: entusiasmam-se ou, simplesmente, a arte torna-se um sinal sociológico de status e as pessoas vão visitar exposições ou adquirir obras só para estarem na parede, para os amigos verem, como afirmação da categoria daquela pessoa, que normalmente é uma categoria superficial.
A & L - Ultimamente, como estamos em crise, tem-se dito que a arte é um investimento seguro. Para um artista, deve ser um bocado chato que se ponham as coisas nestes termos.
Carlos Calvet - Pois, também há esse aspecto. As pessoas lembram-se desse slogan, porque no presente há uma cultura sloganística. E o slogan fica no ouvido. No fim de contas, quando as acções caem, a corrupção aumenta e as pessoas vêem a vida a estragar-se muito, aparece essa ideia de uma coisa segura, cujo valor aumenta com o tempo e não o contrário [risos]. Isso é mesmo típico de uma sociedade consumista.
A & L - Que tira partido de algo que os surrealistas cultivavam muito: o poder da imagem. Mas não era nesse poder, tal como é usado hoje, que vocês acreditavam.
Carlos Calvet - Não, não era. Tinha outra função que não a do espectáculo ou a de dar categoria às pessoas que adquiriam ou gostavam daquela imagem. Havia a função de representação. No passado, os nobres, os clérigos e os dirigentes da sociedade queriam ter os quadros que os representassem. Não havia fotografia e os quadros eram importantes por mostrarem pessoas importantes, não por serem obras de arte. Embora, é claro, também houvesse apreciadores de arte. Há sempre pessoas que são sensíveis.
A & L - As tais que transmitem a arte ao futuro.
Carlos Calvet - Claro que depois, como se sabe, as obras são compradas ou passam para os herdeiros - vão andando de mão em mão -, mas no fim de contas acabam geralmente nos museus, onde muitas vezes ficam nas reservas, escondidas. De qualquer maneira, os museus são os fiéis depositários de todo esse conhecimento e riqueza. Além de que estão abertos ao público, que começa por ser um pequeno público, mas vai crescendo. E depois há exemplos paradigmáticos, como o de Fernando Pessoa, que não valia nada para o país, que era quase desconhecido para a generalidade das pessoas, a não ser por um ou outro pequeno escândalo. Lembro-me de um comentador da época ter dito que Pessoa era um raté da arte e da literatura.
A & L - Um falhado.
Carlos Calvet - Um falhado, um sonhador esquisito, com ideias esotéricas e defensor da maçonaria - o que nos anos 30 era muito grave. Tanto que [em 1934] concorreu com a Mensagem - um poema espantoso, com qualquer coisa de transcendente - a um concurso [a primeira edição do Prémio Antero de Quental, atribuído pelo então Secretariado da Propaganda Nacional, liderado por António Ferro] e nem sequer ganhou.
A & L - Ficou em segundo lugar [vencido por A Romaria, assinado por Vasco Reis, pseudónimo de Reis Ventura (1910-1988)].
Carlos Calvet - São aspectos caricatos e trágicos. A História está cheia deles.
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