Assinala-se este ano o centenário do movimento futurista. Um conjunto de exposições em diversas cidades italianas recupera no imaginário europeu a importância do movimento que louvou a velocidade e a máquina.
Em 1904, Mario Morasso afirmava: “É essencialmente do mundo mecânico, mundo descoberto e criado por nós, que pode surgir esta necessidade de novas linhas estéticas, é a máquina nossa contemporânea que pode sugeri-las e inspirá-las.” Cinco anos depois, a 20 de Fevereiro de 1909, Filippo Tommaso Marinetti, "jovem poeta italiano e francês", faz publicar na primeira página do Le Figaro, dois artigos: "Futurisme" e "Manifeste du Futurisme". Estava lançada a primeira pedra, estabelecendo assim a data “oficial” do nascimento do movimento. Após um acidente de automóvel, Marinetti dita as premissas do manifesto: “Um automóvel que ruge, que parece correr debaixo de fogo, é mais belo do que a Vitória de Samotrácia”; “já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um carácter agressivo pode ser uma obra-prima”; “queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda a espécie” ou ainda “queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo.” Marinetti surge então entre os organizadores das serata futuriste, serões futuristas no Teatro Politeama Rossetti, de Trieste, no Teatro Lírico de Milão. Os grandes “poetas incendiários e irmãos futuristas” (nas suas próprias palavras) são Palazzeschi, Govoni, Boccioni, Carrà, Russolo, Balla, Severini, Mazza, entre outros. Os pintores futuristas querem “destruir o culto do passado”, “exaltar todas as formas de originalidade”, “considerar os críticos de arte inúteis ou prejudiciais”, “rebelar-se contra a tirania das palavras: harmonia e bom gosto”. Mais tarde revelam que “pela persistência das imagens na retina, as coisas em movimento multiplicam-se, deformam-se, sucedendo-se como vibrações no espaço que percorrem. Assim um cavalo a correr não tem quatro patas. Tem 20 e os seus movimentos são triangulares”. O mote está dado: acabou-se o “arcaísmo superficial e elementar à base de cores lisas que reduz a pintura a uma imponente síntese infantil e grotesca”. Os objectos passam a ser traduzidos “de acordo com as linhas-força que os caracterizam” dando “o ambiente emotivo do quadro, síntese dos diversos ritmos abstractos de cada objecto”.Na escultura, Boccioni tem ideias claras e também inovadoras: procura o “estilo do movimento”, proclama a “absoluta e completa abolição da linha fechada e da estátua fechada”, rejeita o nu artístico e o uso exclusivo do mármore e do bronze. Vidro, madeira, cartão, ferro, cimento, crina, fazenda, espelhos, luzes eléctricas são materiais que juntos podem concorrer numa só obra “para o objectivo da emoção plástica”. Virão ainda mais manifestos, abordando a poesia, literatura, teatro, música, arquitectura e até gastronomia. Talvez por isso o futurismo seja o "primeiro movimento de vanguarda apetrechado com uma ideologia global, artística e sem ser artística, abarcando os vários campos da experiência humana, as literaturas, artes figurativas, música, costumes, moral e política". (Luís Bensaja dei Schirò, O Futurismo Italiano – Estética, Ideologia, Fascismo, Caminho)Para assinalar o centenário do futurismo, Roma, Veneza, Rovereto, Turim, Lugano, Milão, Bolonha, Brindisi, Londres, Nova Iorque, Paris e Zurique apresentam exposições evocativas deste movimento artístico. Destacamos desde logo um projecto, em tudo semelhante ao futurismo: “FUTUROMA Futurista – 100 anni del manifesto futurista di Marinetti”. Acontece em Roma e inclui uma programação com arte, música, vídeo, poesia, teatro, performance e cinema, de Fevereiro a Maio. Há também uma importante mostra de pintura, “Futurismo. Avanguardia – Avanguardie”, na Scuderie del Quirinale, em Roma, realizada pelo Musée National d'Art Moderne de Paris – Centre Pompidou e pela Tate Modern de Londres. Ester Cohen (especialista no futurismo), Matthew Gale (Tate Modern de Londres) e Didier Ottinger (Centre Pompidou – Paris) são nomes envolvidos na exposição.Tendo como premissa “reconstituir” a mostra realizada em 1912, na galeria parisiense Bernheim-Jeune, realça os aspectos semelhantes e dissonantes na obra de Boccioni, Carrà, Severini, Balla, Duchamp, Braque, Lèger, Kupka, Delaunay, Gontcharova, Malevitch. Futurismo e cubismo são postos frente a frente, pondo em paralelo as teorias filosóficas e estilos, sem esquecer a análise do vorticismo, sincronismo e cubo-futurismo russo. Anteriormente sitiada no Centre Pompidou, transita, entre Junho e Setembro, para a Tate Modern de Londres. A exposição “Futurismo Manifesto 100 x 100” (na MACRO Future, em Roma) de Achille Bonito Oliva, trata exclusivamente do estilo e linguagem utilizados nos manifestos futuristas. A música e as artes performativas estão bem presentes na instalação do multifacetado Brian Eno, Presentism, Time and Space in the Long Now – inspirada na teoria futurista (Palazzo Ruspoli) – e em Marinetti 4, uma performance-instalação-vídeo interactiva de Lorenzo Pizzanelli. Já em Milão, a Fondazione Stelline apresenta “F.T. Marinetti=Futurismo”, uma exposição mais historiográfica e documental. Exibem-se obras e documentação variada sobre as actividades de Marinetti: na escrita, como autor de teatro, enquanto editor. Caricaturas, retratos e várias obras-primas de Boccioni, Balla, e pela primeira vez, os painéis Parolibere, com grande destaque para o volume Zang tumb-tumb, de 1914. Os Parolibere de Marinetti, e os Azari, Balla, Carrà, Depero, Mazza e Benedetta Marinetti serão alvos de comparação. “Futurismo 100” é uma outra iniciativa, composta por três exposições, que se estenderá até 2010, em Rovereto (MaRT), Veneza (Museo Correr) e Milão (Palazzo Reale). "Illuminazioni. Avanguardie a confronto. Italia, Germania, Russia" é a primeira delas. A já referida Ester Cohen é a curadora deste projecto que pretende reunir três cidades com forte ligação ao movimento futurista, ao mesmo tempo que as exposições dialogam entre si. A exposição do MaRt proporciona um novo olhar sobre o futurismo e os movimentos de vanguarda. Estabelecem-se relações entre as influências entrecruzadas e as semelhanças entre futurismo, cubismo e expressionismo. Fazendo viagens pela Itália, Rússia e Estados Unidos (Nova Iorque), reencontramos obras de Marinetti, Malevitch, Kandinsky, Larionov, Papini, Stieglitz e Severini. "Astrazioni" e "Simultaneità" são as exposições que irão completar o ciclo de “Futurismo 100”. Em Veneza, no Museo Correr, poderemos “repensar” o termo “abstracção”, comparando obras de Balla com as de Mondrian, Picabia, Delaunay e Duchamp. Além disso, "Astrazioni" coincide com a 53ª edição da Bienal de Veneza. Em Milão, "Simultaneità", por seu lado, confronta a arte de Luigi Russolo (além de pintor, criador de imponentes máquinas sonoras) com a de Carlo Carrà, estabelecendo comparações com a escultura vanguardista europeia: Archipenko, Brancusi, Jean Arp, Naum Gabo.Para encerrar este capítulo de “retrospectivas”, nada melhor do que arte contemporânea: a mostra de Luca Buvoli, na Estorick Collection de Londres: “Luca Buvoli: Velocity Zero”. O artista inspirou-se em palavras de Marinetti,que no fim da vida, consola a filha – A Very Beautiful Day After Tomorrow – Un Belissimo Dopodomani. Propositadamente criada para a ocasião, “Velocity Zero” é uma instalação multimédia com gravações de pessoas com afasia, que lêem excertos do Manifesto Futurista “abafados” pela violência, eficiência e agressividade preconizados no texto. No filme A Very Beautiful Day After Tomorrow – Un Belissimo Dopodomani, temos imagens do presente e do passado de velocidade, voos, poder e violência. Não será esta (mais) uma prova irrefutável da “actualidade” e da força anímica do futurismo, mesmo com um século de vida?
por: Teresa Pearce de Azevedo