Saber de experiência feito

CRÍTICA:
La Era de las Ferias/ The Art Fair Age
Paco Barragán
Charta, 2008
200 pgs

 

Nos propósitos iniciais do livro, o autor assume-se como um curador "envolvido" no universo das feiras, adiantando pretender trazer teorias que ajudem a uma análise "mais profunda" e com "mais sossego" desse fenómeno da arte contemporânea.
Paco Barragán, ex-jornalista, é actualmente curador e crítico de arte independente. Anteriormente já se tinha aventurado na história da arte contemporânea, com El Arte que Viene (Subastas Siglo XXI, 2002), uma visão pessoal sobre o tema, através da obra de 159 artistas de todo o mundo. Neste novo trabalho, inovador na temática e na forma, surgem, logo no início, ensaios da autoria de grandes críticos de arte da actualidade: Amanda Coulson trata da questão de haver ou não demasiada criação; Michele Robbechi aborda a relação entre feiras e bienais. Ao socorrer-se das palavras destas figuras, Barragán imprime credibilidade e actualidade à sua obra. Acresce a preocupação óbvia de chegar mais longe e a mais públicos, ao optar pela edição bilingue (espanhol e inglês).
Em cada capítulo do livro, privilegiando uma linguagem simples, clara, e um estilo quase jornalístico (leia-se directo e resumido) o autor aborda várias questões que as feiras suscitam: a grande quantidade das mesmas, a sua função de entretenimento, o papel do curador.
Barragán debruça-se também sobre o papel e estatuto da pintura nos nossos dias; o coleccionismo (tão em voga actualmente) e a feira como espaço de lazer. Talvez contagiado por uma mentalidade do Norte da Europa (vive na Alemanha e na Holanda), o autor optou por um livro conciso, tendo inclusivamente tido a preocupação de fazê-lo de forma a que se lesse rapidamente, sem, no entanto, perder o rigor e a fidelidade ao que é a realidade que ele tão bem conhece.
É, sobretudo, um livro que apresenta ideias de base para reflexão: as feiras são como a globalização, não são boas nem más, reflectem o momento actual. Sobre elas e as bienais é dito que convivem como laranjas e maçãs, harmoniosamente e com "sabores" diferentes. Quanto a outro tema de fundo, o estatuto do curador de feiras, é uma invenção recente, na qual o próprio Paco Barragán teve algum pioneirismo. Trata-se pois, mais uma vez, de uma escrita com base na experiência do autor.
Mais do que uma obra de carácter ensaístico, Barragán propõe-nos uma obra que permite circular com algum à-vontade pelos meandros das feiras de arte, desmistificando preconceitos, embora não temendo algumas provocações, como quando refere que "ter uma obra de arte é um luxo tão grande como ter um carro."

 

 

 


por: Teresa Pearce de Azevedo

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